Teleféricos de até R$ 2,3 bilhões em São Paulo ainda estão longe de sair do papel

Prefeitura estuda sistemas na Brasilândia e no Jabaquara, mas projetos ainda não têm recursos para implantação; experiências de Medellín e Rio mostram possibilidades e limitações do modal

Projeção do teleférico de Brasilândia
Projeção do teleférico de Brasilândia (Prefeitura de São Paulo)

A Prefeitura de São Paulo voltou a estudar a implantação de teleféricos como alternativa de transporte público em áreas das zonas norte e sul da capital. As propostas mais extensas somam 15,2 km e 18 estações e poderiam consumir quase R$ 3 bilhões apenas em sua implantação.

Os números chamam atenção, mas os projetos ainda estão em uma etapa bastante distante das obras. Não há definição sobre modelo de financiamento, contratação ou cronograma de implantação, enquanto os recursos atualmente previstos pela Prefeitura para transporte por cabo são incompatíveis com os investimentos estimados nos próprios estudos.

O caso mais ambicioso é o da Brasilândia. Uma alternativa elaborada pela SP Urbanismo prevê 11,9 km, 13 estações e capacidade de até 3.480 passageiros por hora, com integração à Linha 6-Laranja.

A implantação foi estimada em R$ 2,3 bilhões, além de R$ 159,4 milhões anuais para operação e manutenção.

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Existe também uma alternativa de menor porte estudada pela SPTrans, com 2,6 km, quatro estações e capacidade de 2.010 passageiros por hora. Nesse cenário, o investimento cairia para aproximadamente R$ 516 milhões e o custo anual de operação e manutenção seria de R$ 34,9 milhões.

No Jabaquara, a proposta liga o terminal e a estação da Linha 1-Azul ao Jardim São Savério. São 3,3 km, cinco estações e capacidade projetada de 2.530 passageiros por hora. O investimento estimado é de R$ 650 milhões, com custo anual de operação e manutenção de R$ 44,2 milhões.

Teleférico proposto para a Brasilândia teria quase 12 km (Prefeitura de São Paulo)

A viagem levaria cerca de dez minutos, ante os 34 minutos considerados atualmente pelo estudo. A implantação, porém, ainda precisaria enfrentar questões como a proximidade com o Parque Estadual Fontes do Ipiranga e obstáculos existentes no percurso.

Menos de R$ 1 milhão previsto até 2029

A distância entre os estudos e uma eventual implantação fica mais clara no planejamento orçamentário da cidade.

O Plano Plurianual 2026-2029 possui uma ação específica para “Implantação de Transporte Público Aéreo por Cabo”, mas reserva apenas R$ 908,8 mil durante os quatro anos.

São R$ 202 mil em 2026, R$ 215 mil em 2027, R$ 236 mil em 2028 e R$ 256 mil em 2029.

Os valores são pequenos diante dos R$ 516 milhões da versão mais curta da Brasilândia, dos R$ 650 milhões calculados para São Savério e, sobretudo, dos R$ 2,3 bilhões necessários para a alternativa mais extensa na zona norte.

Isso não impede que os projetos avancem por meio de outras fontes de recursos ou de uma parceria com a iniciativa privada. A Prefeitura chegou a estudar uma modelagem econômico-financeira para avaliar formas de viabilizar o sistema. Até agora, porém, não existe uma estrutura financeira definida para transformar as propostas em obras.

Um dos teleféricos do Metrocable, em Medellín, Colômbia (Joshua Heller)

Bonde SP tem situação diferente

A comparação com o Bonde SP ajuda a mostrar a diferença de maturidade entre projetos de transporte anunciados pelo município.

O sistema inicialmente apresentado como VLT passou por uma revisão de conceito e atualmente é tratado pela Prefeitura como VLE. O projeto prevê duas linhas e aproximadamente 12 km de extensão na região central.

Mesmo após a mudança, o Bonde SP possui R$ 315 milhões previstos no PPA entre 2026 e 2029, contra menos de R$ 1 milhão destinado à implantação de transporte público por cabo.

A alteração do projeto também mostra como propostas de novos modais podem mudar significativamente entre os primeiros estudos e uma eventual implantação.

Imagem conceitual do VLE, modal em substituição o VLT no centro de São Paulo (Divulgação Prefeitura de São Paulo)

Teleféricos já foram estudados em 2012

A ideia de transportar passageiros por cabos na capital paulista também não surgiu agora.

Em 2012, a SPTrans avaliou uma série de possíveis ligações por teleférico em regiões como Pirituba, Jaraguá, Tucuruvi, Jardim Ângela, Guarapiranga, Interlagos, Pedreira e Cidade Jardim. Nenhuma delas avançou para implantação.

O exemplo internacional mais conhecido de utilização de teleféricos como transporte público está em Medellín, na Colômbia.

Diferentemente de sistemas essencialmente turísticos, o Metrocable foi incorporado à rede de transporte da cidade para atender bairros localizados em encostas e conectá-los às linhas estruturais.

Atualmente são seis linhas de teleférico, com 14,62 km de extensão. Algumas delas desembocam diretamente em estações do metrô e funcionam como alimentadoras da rede.

A Linha P, por exemplo, possui capacidade para 4.000 passageiros por hora e sentido e transporta mais de 40 mil pessoas em um dia útil. O desempenho mostra que a capacidade estimada para os projetos paulistanos é tecnicamente possível para sistemas modernos de transporte por cabo.

A geografia atendida em Medellín, entretanto, é um componente importante da solução. Os teleféricos vencem fortes desníveis e alcançam bairros de encosta onde a implantação de sistemas convencionais enfrenta dificuldades físicas e custos elevados.

Teleférico do Morro do Alemão está desativado desde 2016 (GF)

Rio teve sistemas parados por anos

O Rio de Janeiro oferece experiências mais próximas e com resultados distintos. O Teleférico da Providência possui apenas 721 metros e três estações. Inaugurado em 2014, deixou de funcionar em 2017 e permaneceu vários anos parado.

Após investimentos de recuperação, voltou à operação e passou a cumprir uma função de transporte entre o Morro da Providência, a região da Gamboa e a Central do Brasil. Em setembro, alcançou quatro milhões de passageiros desde a retomada plena da operação, em fevereiro de 2025.

Já o Teleférico do Complexo do Alemão teve trajetória diferente. Inaugurado em 2011, o sistema deixou de funcionar em 2016 e permanece fora de operação uma década depois.

O governo fluminense iniciou obras para recuperar a infraestrutura, mas o prazo para a retomada do serviço foi sucessivamente alterado e atualmente aponta para junho de 2027.

Estação Brasilândia em dezembro de 2025 (Linha Uni)

11,9 km colocariam Brasilândia em outra escala

As experiências existentes também ajudam a dimensionar a proposta mais extensa estudada para a Brasilândia.

Com 11,9 km, ela teria sozinha uma extensão próxima à soma das seis linhas de teleférico existentes em Medellín. O próprio estudo da SPTrans observa que sistemas urbanos monocabo costumam ter percursos de aproximadamente 3 km.

A alternativa de São Savério, com 3,3 km e conexão direta com Jabaquara, aproxima-se mais dessa escala. Já a proposta mais extensa da Brasilândia utilizaria o modal por quase 12 km e 13 estações, com custo anual de operação e manutenção estimado em quase R$ 160 milhões.

Por enquanto, nenhuma das duas propostas possui cronograma de implantação. Os estudos terão ainda de demonstrar não apenas a viabilidade técnica dos teleféricos, mas como os sistemas seriam financiados, operados e integrados à rede de transporte público existente na capital.