29 anos de CPTM: A importância e o futuro da companhia
Ao longo dos últimos 29 anos a CPTM contribuiu para a modernização do transporte sobre trilhos em São Paulo, mas, será que essa tendência se manterá?
Nesta sexta-feira, 28 de maio, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos comemora o aniversário de 29 anos de sua criação. A empresa surgiu em um período de grandes mudanças no setor ferroviário nacional e num processo que é conhecido como estadualização, onde o governo federal repassou à esfera estadual o ordenamento e operação das malhas de trens suburbanos. Depois de quase três décadas de existência podemos dizer que a CPTM está em seu ápice, e pode melhorar ainda mais.
Nesse aniversário de 29 anos, algumas questões importantes precisam ser levantadas: há espaço para que a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos possa, no futuro próximo, continuar atuando como a principal operadora de trens urbanos no Brasil? Qual o papel dela no desenvolvimento da Grande São Paulo? Vamos entender esses temas.
História
A história da CPTM se mistura com a das primeiras ferrovias no estado. Inicialmente o que hoje são as linhas 7 e 10 foram abertas pela companhia inglesa São Paulo Railway no ano de 1867, seguidas das Linhas 8 pela Estrada de Ferro Sorocabana e 11 pela Estrada de Ferro do Norte (que seria sucedida pela Central do Brasil ainda no século XIX) no ano de 1875. Em 1934 foi a vez de ser aberta a Variante de Poá, hoje Linha 12-Safira, e por último a linha que até há pouco tempo era a caçula da empresa, a 9-Esmeralda partindo de São Paulo até o alto da serra na estação de Evangelista de Souza no ano de 1957.
Os anos se passaram e o serviço foi se transformando. Os trens de viagens regulares se transformaram em trens de subúrbio dedicados ao transporte de massa. O crescimento súbito da metrópole fez com que as gestões estivessem mais alinhadas e dedicadas em separar o serviço de cargas do serviço de passageiros. No caso das linhas geridas pela antiga RFFSA, foi necessário criar uma nova empresa, a CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), que se tornou responsável pelas Linhas 7, 10, 11 e 12.
Para as linhas da Sorocabana, assumidas pela Fepasa no início dos anos 70, foi criado um departamento específico para o transporte de passageiros em caráter metropolitano que foi responsável pela modernização do sistema. A criação da DRM foi, em certa medida, a semente que deu origem à CPTM.

Fundação da CPTM
A CPTM foi criada oficialmente no dia 28 de maio de 1992 durante a gestão do governador Luiz Antônio Fleury. No período em questão, a Fepasa já havia atingido o ápice de sua operação, mas com trabalhos remanescentes na antiga linha Sul, enquanto a CBTU operava um serviço considerado precário e perigoso, não sendo raras as notícias em jornais que citavam os acidentes envolvendo surfistas, pingentes, além das ocorrências evidenciando falta de segurança dentro e fora dos trens.
A CPTM efetivamente assumiu as operações do sistema ferroviário pelas linhas da CBTU no ano de 1994 sendo que apenas dois anos depois, em 1996, ela recebeu autorização para operar as linhas da Fepasa.
Ao longo de sua história, a CPTM passou por grandes processos que resultaram em uma série de melhorias. Originalmente ela deveria ter sua malha concedida para a iniciativa privada, entretanto as tentativas nunca foram bem sucedidas. Coube ao governo do estado realizar investimentos estruturantes para que o serviço fosse dinamizado e o número de passageiros aumentasse.
Aqui destacamos as obras de dinamização da Linha C, onde as estações entre Pinheiros e Santo Amaro, originalmente previstas pela Fepasa, foram construídas, aumentando a demanda e a capilaridade da Linha 9-Esmeralda. A criação da Linha 5-Lilás entre Capão Redondo e Largo Treze, que foi a primeira linha construída pela CPTM e posteriormente repassada ao Metrô. O Expresso Leste, onde houve a desativação das estações intermediárias entre Itaquera e Tatuapé, além da retificação do traçado, economizando tempo nas viagens. As obras de modernização da Linha F, que culminaram em grandes reformas e novas estações ao longo da Linha 12-Safira.

O que mais se destaca é a troca e ampliação da frota de trens. Nenhuma outra empresa no Brasil investiu tanto na compra de novos trens como a CPTM. Entre 2008 e 2021 foram 172 novas composições adquiridas. Se forem contabilizados os trens espanhóis da Série 2000, 2100 e os alemães da série 3000, além das modernizações em trens antigos, esse número é ainda maior. O que antes era uma ideia utópica hoje é real. Praticamente todos os trens da empresa têm a “qualidade de Metrô” e rodam com ar-condicionado.
Um dos últimos grandes fatos de relevância para a empresa foi a implantação da Linha 13-Jade. A ligação entre o centro de São Paulo e o Aeroporto almejada desde a primeira gestão do governador Geraldo Alckmin foi entregue efetivamente no ano de 2018. A linha ainda não atingiu o potencial pleno, mas espera-se que com a implantação de novas estações o trecho possa ganhar maior importância e ter o seu intervalo reduzido.

Desafios para “um futuro”
Apesar de a CPTM ter promovido grandes obras para modernizar suas estruturas, ainda há muito a ser feito. A diminuição do intervalo dos trens aliado com a recapacitação elétrica das linhas são importantes investimentos que levarão a empresa de fato para os tempos de modernidade. Investimentos em tecnologia com arrojados sistemas de telecomunicações e sinalização permitirão com que os equipamentos, hoje considerados arcaicos, possam ter maior confiabilidade.
Entretanto, tendo em vista a capacidade limitada de investimento por parte do estado, considerando os impactos da pandemia da Covid-19, a aposta para o futuro da CPTM está nas concessões. Pensadas e planejadas no começo do novo milênio, só agora, depois de uma série de melhorias estruturais é que houve adesão por parte das empresas em operar os trechos. A começar pelas linhas 8 e 9 que, mesmo sendo as mais modernas e bem cuidadas linhas da empresa, vão receber investimentos bilionários que poderão trazer o trem metropolitano a um novo patamar de qualidade.
Além da concessão das linhas 8 e 9, temos a implantação dos primeiros trens intercidades. O projeto idealizado originalmente no final da década de 80 previa serviços de alta velocidade para os principais destinos da Macrometrópole paulista. Esse serviço deverá surgir através de uma parceria público-privada (PPP) onde investimentos do poder concedente e concessionária serão direcionados para o projeto do TIC. Cabe lembrar que a Linha 7-Rubi foi incluída no pacote tornado a operação dos dois sistemas mais homogênea e não conflitantes.
Existem muitos projetos, ideias e principalmente ações que podem ser tomadas para melhorar ainda mais a experiência de viagem. Nos últimos anos a CPTM conseguiu otimizar sua operação contando apenas com os recursos atualmente disponíveis. Daí surgiu o “Novo Expresso Leste” eliminando a transferência em Guaianases, o fim da baldeação em Francisco Morato, novos serviços expressos na Linha 10 que culminaram no Serviço 710, um serviço que encurta distâncias e amplia as possibilidades de integração.
O futuro a médio prazo da CPTM poderá ser pautado justamente pelas próximas gestões no GESP. Existe a possibilidade de que a estatal possa se fortalecer e se impor de forma “competitiva” ante a presença das futuras concessionárias, ou que o processo de gradual desagregação da malha da empresa continue. Cabe citar que a “competitividade” é algo que jamais deveria ser considerado quando se fala em transporte público. A ideia de transformar passageiros em clientes retira, implicitamente, o papel social e imputa nas empresas uma visão estritamente empresarial. É necessário sim ter eficiência nos processos em todas as esferas, mas sem prescindir da função máxima do transporte sobre trilhos, garantir o direito de ir e vir das pessoas.
Espera-se que tanto a CPTM como as demais operadoras possam aprender umas com as outras. Nesse cenário otimista o transporte sobre trilhos melhora e cresce, tanto em volume de passageiros, como em qualidade.

Conclusão
O aniversário de 29 anos da CPTM é um momento onde devemos parar e refletir no que já foi feito e, no mais importante, qual será o destino da empresa? Quando pensamos nas ações que a empresa já realizou pelos trilhos paulistas não é exagero dizer que ela deixou uma marca perpétua na história. A CPTM como empresa foi, e ainda é, extremamente relevante para trazer investimento para as áreas periféricas da região metropolitana. Em algumas cidades ela é a empresa que possui maior relevância no cotidiano das pessoas e seu impacto pode ser sentido justamente pelo adensamento populacional em seu entorno. Ela não só capta passageiros, como também incentiva e valoriza os locais por onde passa.
Por outro lado, temos que pensar no futuro da CPTM. Questionar a existência da empresa nos próximos não é delírio, é uma realidade que precisa ser encarada com olhar frio e crítico. No ano de 1998 a sua “irmã” carioca, a Flumitrens, passou por um processo de concessão que resultou na operadora privada Supervia realizando a operação e gestão do serviço metropolitano na capital fluminense e cidades do entorno.
No fundo, talvez o destino da CPTM seja esse. Sua extinção pode ser apenas uma questão de tempo e de alinhamento político, caso os gestores sejam adeptos à ideia, o que agiliza sobremaneira o processo de repasse para a gestão privada.
Dizer que as futuras concessionárias terão um serviço comparável ao da Supervia é incerto. As características sócio espaciais da metrópole paulista, aliadas à capacidade financeira sólida do estado de São Paulo, dentre outros fatores de relevância, podem evitar situações dramáticas como aquela em qual a operadora de trens do Rio de Janeiro passa atualmente.
Os investimentos por parte de parceiros privados são bem vindos, nossas ferrovias precisam de mais cuidados para que os milhares de passageiros possam ser bem atendidos e ter à sua disposição um serviço de qualidade. Nesse quesito esperamos que a “passagem de bastão” para o Grupo CCR, por meio da ViaMobilidade Linhas 8 e 9, possa gerar bons frutos.
Uma coisa também precisa ser dita: quer se apoie ou seja contra o processo de concessão da empresa, devemos reconhecer que a CPTM ao longo de seus 29 anos de existência deixou uma marca positiva e irreversível na história dos trens urbanos em São Paulo.
Foram os anos de persistência que transformaram aquele transporte precário e perigoso, que mal transportava 800 mil passageiros por dia, em um serviço confiável e seguro atraindo cada vez mais passageiros ao ponto de atingir a marca de 3 milhões de cidadãos por dia, mais que o triplo de quando iniciou suas operações e, detalhe, praticamente sem expandir sua malha de forma significativa.
A CPTM precisa ser mais valorizada. Pelo o que fez e pelo o que ainda pode fazer. Parabéns pelos 29 anos de avanços!

