Aeromovel de Guarulhos vai operar o dia inteiro aos fins de semana, mas ANAC ainda vê riscos no projeto

Relatório técnico aponta falhas durante os testes e diz que ainda há dúvidas sobre a conclusão e certificação plena do sistema

Aeromovel de Guarulhos
Aeromovel de Guarulhos (rebU)

O Aeromovel do Aeroporto de Guarulhos vai passar a funcionar em horário completo, das 4h à meia-noite aos fins de semana a partir do dia 29. A informação foi revelada pelo consórcio AeroGRU ao jornal Folha de S. Paulo e surge logo após a confirmação de uma multa de R$ 12,8 milhões à concessionária GRU Airport, responsável pelo projeto.

O sistema People Mover do maior aeroporto brasileiro começou a levar passageiros em dezembro do ano passado, inicialmente apenas funcionários de empresas que operam no local. No início deste ano, o serviço estreou para qualquer pessoa, mas em horário restrito e com um trem apenas. Desde então, houve a ampliação da oferta mas ainda longe do planejado. Atualmente, dois trens circulam entre 16h e meia-noite embora seja possível ver unidades operando em outros horários.

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Apesar da novidade, o Aeromovel ainda enfrenta problemas técnicos e pode não estar completamente pronto em 30 de setembro, prazo atualmente estabelecido para conclusão e certificação do sistema. A avaliação consta de um relatório recente da ANAC que acompanhou os testes realizados pela GRU Airport e analisou o cronograma apresentado pela concessionária.

Na Nota Técnica, a área responsável pelo acompanhamento do projeto afirma que existem “dúvidas quanto à viabilidade técnica” de conclusão de todos os investimentos até o final de setembro. O documento também deixa claro que o serviço oferecido atualmente aos passageiros continua sendo uma operação de testes e não pode ser considerado uma entrega parcial do sistema.

Passageiros utilizando o Aeromovel

A avaliação ajuda a dimensionar a situação do projeto, que deveria ter sido concluído originalmente em 2024 e sofreu sucessivos adiamentos. O Aeromovel foi construído para ligar a estação Aeroporto-Guarulhos, atendida pela Linha 13-Jade e pelo Expresso Aeroporto da CPTM, aos terminais do maior aeroporto brasileiro.

O cronograma vigente foi apresentado pela GRU Airport em fevereiro e prevê que a implantação, certificação e operação plena sejam alcançadas em 30 de setembro. Em análise anterior, porém, a própria ANAC já havia afirmado não haver elementos técnicos suficientes para considerar esse prazo confiável.

Painel de informação dentro do Aeromovel (Metrô CPTM)

Problemas durante os testes

O acompanhamento feito pela agência mostra que o Aeromovel avançou em relação aos primeiros meses do ano, mas continua passando por ajustes durante a própria circulação.

Em vistoria realizada em 8 de julho, a ANAC registrou paralisações de alguns minutos nos veículos verde e laranja, além da presença de um técnico a bordo realizando ajustes ou reparos.

Cinco dias depois, apenas o veículo laranja estava funcionando e os painéis informativos estavam desligados. Os técnicos também observaram demora na abertura das portas na estação do Terminal 2.

O terceiro Aeromovel (laranja) na área de manutenção (rebU)

Em nova vistoria, em 27 de julho, o veículo laranja estava com os painéis e o sistema de som inoperantes, situação que, segundo a agência, provocava dúvidas entre os passageiros sobre as estações ao longo do percurso.

A ANAC também cobrou a solução de pendências relacionadas às informações sobre estações, percurso e tempo de espera pelo próximo veículo, além de correções nos relógios dos painéis, no sistema de sonorização e na apresentação das informações de voos.

Para a área técnica, o cenário observado caracteriza uma operação de testes “ainda com calibrações e ajustes sendo realizados a todo o tempo”. O documento ressalta que os ajustes continuam ocorrendo mesmo dentro das condições já abrangidas pelas autorizações de segurança concedidas ao sistema.

Terceiro veículo ainda não foi acompanhado pela ANAC

Outro ponto citado no relatório é a utilização dos três veículos do Aeromovel. Nas inspeções realizadas pela agência, a operação vinha ocorrendo com as unidades verde e laranja.

Até a elaboração da nota técnica, a ANAC ainda não havia acompanhado a circulação do veículo azul. A GRU Airport informou à agência que essa unidade também estava em processo de comissionamento e seria entregue até 30 de setembro.

O projeto completo foi especificado para transportar pelo menos 2 mil passageiros por hora e por sentido, com intervalo máximo de 12 minutos entre os veículos. Em abril, a ANAC havia registrado uma situação muito distante dessa capacidade: operação de apenas um veículo, velocidade de 25 km/h e capacidade limitada a cerca de 300 passageiros por hora e por sentido.

Aeromovel no Terminal 3 de Guarulhos (Thiago Nonato)

Prazo já foi descumprido diversas vezes

A desconfiança da agência em relação ao novo cronograma está relacionada ao histórico do empreendimento. A área técnica recorda que sucessivas dificuldades foram apresentadas como as últimas barreiras para a conclusão do sistema, mas novos problemas surgiram posteriormente.

Um dos prazos anteriores previa a entrega em 31 de agosto de 2025, que também não foi cumprido. Neste ano, a GRU Airport informou que o novo cronograma estava respaldado por um terceiro aditivo contratual firmado entre o Consórcio AeroGRU e a Innomotics, responsável pelos sistemas de automação e controle.

Esse aditivo, assinado em março, estendeu etapas de desenvolvimento, testes e comissionamento até setembro e acrescentou R$ 16,59 milhões ao contrato. Com outras alterações realizadas desde 2023, o valor desse contrato específico passou dos R$ 33,7 milhões originais para R$ 58,38 milhões.

A análise da ANAC encontrou ainda uma diferença importante entre o prazo originalmente exigido pela concessão e o planejamento existente entre as empresas responsáveis pelo projeto. O contrato de automação, firmado em maio de 2023, previa etapas de comissionamento e validação posteriores a fevereiro de 2024, quando o Aeromovel deveria estar integralmente disponível.

Segundo a agência, isso mostra que o planejamento interno já não contemplava a entrega do sistema plenamente operacional e certificado naquele prazo.

Aeromovel no Terminal 1 (Thiago Nonato)

O que acontece depois de setembro

A situação também está sendo acompanhada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Inicialmente, o tribunal havia determinado que, caso o Aeromovel não estivesse plenamente certificado até 30 de setembro, a ANAC acionasse imediatamente mecanismos para excluir o investimento da concessão.

Após recurso do Consórcio AeroGRU, essa determinação automática foi retirada. O TCU passou a exigir uma avaliação mais ampla da ANAC sobre o estágio alcançado pelo sistema e sobre a possibilidade de aproveitá-lo mesmo com desempenho inferior ao originalmente especificado, levando em consideração segurança, interesse público e qualidade do serviço.