Pouco mais de 18 meses à frente da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy foi preso na manhã desta quinta-feira, 06, em São Paulo, pela Polícia Federal. Ele é apontado como um dos suspeitos de conluio entre empresários e agentes públicos da área da Saúde que faziam contratações dirigidas de insumos e equipamentos médicos, segundo a Operação Dardanários.

Após assumir a pasta responsável pela gestão do transporte sobre trilhos e de ônibus intermunicipais no estado, Baldy imprimiu uma gestão focada em gestos de transparência e com a promessa de destravar várias obras de expansão que estavam paradas ou em ritmo lento desde a gestão do ex-governador Alckmin. Ex-deputado federal por Goiás, o advogado de formação ocupou o Ministério das Cidades no governo de Michel Temer e era uma das indicações políticas do governo Doria na tentativa de atrair uma base partidária maior para o tucano, segundo artigos de jornais.

A prisão preventiva ocorre dois dias depois do secretário pedir licença do cargo para resolver problemas pessoais. De acordo com o jornal O Estado de São Paulo, Baldy havia deixado de participar de reuniões do secretariado de Doria nos últimos dias. O governador divulgou nota em que afirma que “Os fatos que levaram as acusações contra Alexandre Baldy não têm relação com a atual gestão no Governo de São Paulo. Portanto, não há nenhuma implicação na sua atuação na Secretaria de Transportes Metropolitanos. Na condição de Governador de São Paulo, tenho convicção de que Baldy saberá esclarecer os acontecimentos e colaborar com a Justiça”.

Já a Secretaria dos Transportes Metropolitanos revelou que a “a Polícia Federal esteve na sede da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, em São Paulo, cumprindo mandado de busca e apreensão da Operação Dardanários, que foi expedido pela 7ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Importante ressaltar que tal operação não tem relação com a atual gestão do Governo de São Paulo. A STM colaborou junto à PF enquanto estiveram no prédio. Após as buscas, nenhum documento ou equipamento foi levado pela Polícia Federal”.

O secretário Alexandre Baldy e o vice-governador Rodrigo Garcia em teste do Expresso Turístico: em busca do investimento privado para destravar projetos (STM)

Avanços e retrocessos

Segundo relato ao site, a STM trabalha normalmente, apesar da prisão. O segundo no comando da pasta é Paulo José Galli, o secretário executivo, e que muitas vezes representa Baldy em eventos. Embora não tenha relação com a atual gestão, as suspeitas sobre o secretário podem levá-lo a deixar o cargo, segundo análise do jornalista Igor Gielow, da Folha de São Paulo. Isso porque outros dois políticos conhecidos, o ex-prefeito Gilberto Kassab e o ex-senador Aloysio Nunes Ferreira, foram afastados do governo mesmo sem terem sido presos. O argumento é que a prisão de Baldy pode constranger o governador.

No começo da noite, o governo Doria publicou nota em que afirma que o secretário pediu afastamento do cargo por 30 dias: “Alexandre Baldy pediu licença do cargo de Secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo pelo período de 30 dias, a partir de amanhã, dia 7, para se concentrar exclusivamente na sua defesa. À frente da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, Baldy retomou obras de mobilidade, garantiu a renovação da frota de ônibus intermunicipais e acelerou a construção de cinco novas estações do Metrô. Alexandre Baldy tem demonstrado competência, dedicação e postura idônea no exercício da sua função no Governo de São Paulo. A Secretaria dos Transportes Metropolitanos passa a ser comandada temporariamente pelo seu Secretário Executivo, Paulo Galli“, diz o texto.

Desde que assumiu a pasta, em janeiro de 2019, Alexandre Baldy indicou um diretor da própria CPTM para presidente, Pedro Moro, e Silvani Pereira, que ocupou o cargo de secretário executivo do Ministério das Cidades, entre outros.

Entre os avanços até aqui estão a longa negociação para que a construtora espanhola Acciona assumisse a Linha 6-Laranja, a retomada da expansão da Linha 2-Verde até Penha e o remanejamento dos trens da Série 8000 da CPTM que eram exclusivos da Linha 8-Diamante para permitir a aposentadoria da maior parte dos trens espanhóis que operavam na Linha 10-Turquesa.

Por outro lado, Baldy acabou trocando problemas na Linha 17-Ouro ao afastar o consórcio Monotrilho Integração e lançar duas licitações que hoje estão paradas na Justiça. Mas o maior retrocesso foi o cancelamento da Linha 18-Bronze, que deveria atender a região do ABC Paulista. O episódio, logo nos primeiros meses da gestão Doria, até hoje não foi claramente explicado ao condenar um contrato assinado e com projetos desenvolvidos por um corredor de ônibus.

Doria, ao lado Baldy e de Garcia durante anúncio do BRT: cancelamento da Linha 18 foi ponto baixo até aqui (GESP)

O ex-deputado também teve de lidar com situações complicadas como a grave falha no monotrilho da Bombardier, que paralisou a Linha 15-Prata por vários meses. Além disso, o secretário se desdobrou para manter o Metrô e a CPTM funcionando em plena pandemia.

Mas recentemente, Baldy colecionou alguns dissabores como o estranhamento com o prefeito de São Paulo Bruno Covas e sobretudo com a paralisação dos metroviários por algumas horas na semana passada após uma tardia negociação por benefícios trabalhistas. A decisão de cortar 10% dos salários dos funcionários do Metrô também foi vista como uma atitude de reflexos negativos.

Aposta na iniciativa privada

Apesar dos contratempos, o secretário se preparava para um grande teste nos próximos meses, colocar em prática várias promessas de concessões de linhas e obras para a iniciativa privada. Sem caixa no governo, Baldy e a cúpula do governo Doria desenharam uma saída extremamente dependente do capital privado, como mostrou o site recentemente. Entre os projetos estão a concessão das linhas 8 e 9, do Trem Intercidades em conjunto com a Linha 7-Rubi, e também a extensão das concessões das linhas 4-Amarela e 5-Lilás mediante a expansão desses ramais pela ViaQuatro e ViaMobilidade.

Tanto a gestão na CPTM quanto no Metrô também tem buscado ampliar as receitas não-tarifárias para depender menos do transporte de passageiros. Caso Baldy não continue à frente da STM, é natural que esses projetos sejam mantidos e que Doria venha a colocar alguém no cargo com proposta semelhante. Resta saber se haverá a mesma disposição do político goiano de ir às redes sociais responder pessoalmente aos usuários sobre as ações da pasta.

Atualizado para inclusão de nota de afastamento do secretário.

Baldy com os diretores da Acciona: retomada da Linha 6-Laranja é o grande feito em 18 meses de gestão (STM)