CPTM recebeu R$ 2,2 bilhões do Estado em 2025. Para onde foi esse dinheiro?
Recursos destinados ao custeio e à remuneração do serviço somaram R$ 1,49 bilhão, enquanto outros R$ 699 milhões foram direcionados ao programa de investimentos
A CPTM recebeu cerca de R$ 2,2 bilhões do governo de São Paulo em 2025, valor que ajuda a dimensionar a dependência da estatal de recursos públicos. Mas o montante reúne transferências com finalidades bastante diferentes e não pode ser interpretado simplesmente como dinheiro utilizado pelo Estado para cobrir o prejuízo de R$ 588,6 milhões registrado pela companhia no ano.
As demonstrações financeiras da CPTM permitem separar esses recursos em dois grandes grupos. Aproximadamente R$ 1,49 bilhão foi recebido para custeio, recomposição tarifária e ressarcimento de gratuidades. Outros R$ 699,4 milhões foram destinados ao programa de investimentos da companhia por meio de Adiantamentos para Futuro Aumento de Capital, conhecidos pela sigla AFAC.
A distinção é importante porque investimentos e operação seguem caminhos contábeis diferentes. Comprar equipamentos, executar obras ou incorporar novos ativos não equivale a pagar salários, energia, manutenção e demais despesas necessárias para manter os trens circulando.
R$ 1,49 bilhão ligado à operação
A maior transferência individual para a operação da CPTM em 2025 foi a subvenção para custeio, que chegou a R$ 886,2 milhões.
Trem da CPTM na estação Brás, sem a logomarca da estatal ((MetrôCPTM))
Como mostrou a terceira reportagem desta série, esse recurso faz parte do modelo de financiamento da companhia. A tarifa é determinada pelo governo estadual e, somada às demais receitas associadas ao transporte, não é suficiente para financiar toda a estrutura da estatal.
Outra parcela veio da recomposição tarifária. A CPTM reconheceu R$ 374,1 milhões dessa receita em 2025, mas recebeu efetivamente R$ 323,4 milhões em caixa durante o exercício.
A diferença ocorre porque o reconhecimento de uma receita e seu pagamento podem acontecer em momentos distintos. A recomposição existe para remunerar viagens realizadas pela CPTM que, pelas regras da câmara de compensação do sistema tarifário, não tiveram a receita correspondente repassada à companhia.
Trem da Série 7000 com frase pichada “Volta CPTM” (Reprodução Redes Sociais)
O terceiro componente foram R$ 282,2 milhões recebidos como ressarcimento pelas gratuidades concedidas aos passageiros.
Somados os valores efetivamente recebidos de subvenção, recomposição tarifária e gratuidades, os recursos públicos ligados ao custeio e à prestação do serviço chegaram a aproximadamente R$ 1,49 bilhão em 2025.
Outros R$ 699 milhões eram para investimentos
Separadamente, o Estado transferiu R$ 699,4 milhões à CPTM por meio de AFAC. Apesar do nome pouco familiar, o mecanismo é relativamente simples. Como controlador da companhia, o Estado adianta recursos que posteriormente podem ser incorporados ao capital social da empresa.
No caso da CPTM, as notas explicativas das demonstrações financeiras informam que esses adiantamentos são destinados ao seu programa de investimentos e liberados para o pagamento de medições e outras despesas caracterizadas como investimento.
Isso impede uma comparação direta entre os R$ 699,4 milhões e o prejuízo de R$ 588,6 milhões apresentado pela CPTM no mesmo exercício.
Parte da frota atualmente em operação pela CPTM foi fabricada pela CAF. (Divulgação CAF)
Os dois números pertencem a partes diferentes das contas da companhia. O prejuízo é resultado da diferença contábil entre receitas, custos e despesas reconhecidos durante o exercício. Já os recursos de AFAC são aportes do acionista controlador destinados a financiar investimentos e aumentar o capital da empresa.
Dizer que o Estado colocou quase R$ 700 milhões na CPTM para cobrir um prejuízo próximo de R$ 600 milhões produziria, portanto, uma relação que as próprias demonstrações financeiras não estabelecem.
Capital social supera R$ 23 bilhões
A presença do Estado também aparece no patrimônio da CPTM. O capital social da companhia passou de aproximadamente R$ 20,25 bilhões no final de 2024 para R$ 23,07 bilhões em dezembro de 2025.
Esse crescimento ajuda a entender outra característica aparentemente contraditória de seu balanço. A CPTM acumulava R$ 11,79 bilhões em prejuízos ao final de 2025, mas ainda assim possuía patrimônio líquido positivo de R$ 12,89 bilhões.
Os prejuízos acumulados são uma conta negativa dentro do patrimônio líquido, não uma dívida da companhia nesse valor. Do outro lado estão o capital colocado pelo acionista e outras contas patrimoniais.
Como o Estado transfere recursos e bens para a CPTM ao longo do tempo, o capital social pode crescer mesmo enquanto a empresa acumula resultados negativos decorrentes de sua operação.
Linha 11-Coral da CPTM que foi concedida (Jean Carlos)
R$ 2,2 bilhões em bens sob ressalva
Uma questão diferente aparece no relatório dos auditores independentes da BDO sobre as demonstrações de 2025.
A CPTM reconheceu aproximadamente R$ 2,19 bilhões em bens adquiridos pela Secretaria dos Transportes Metropolitanos e disponibilizados à companhia. Desse total, cerca de R$ 2,12 bilhões foram registrados no ativo imobilizado e R$ 72,2 milhões em estoques.
Entre esses bens estão 73 trens, além de simuladores, peças sobressalentes e outros equipamentos.
O valor não corresponde a mais R$ 2,19 bilhões transferidos em dinheiro para a CPTM em 2025. Trata-se da regularização contábil de patrimônio adquirido pelo Estado e colocado à disposição da empresa. Foi justamente essa contabilização que motivou uma ressalva dos auditores.
A BDO apontou deficiências nos controles internos relacionados à incorporação dos bens e diferenças entre valores registrados pela Secretaria e aqueles reconhecidos pela CPTM. Segundo os auditores, os trabalhos de conciliação e mensuração ainda não estavam concluídos, o que impediu determinar eventuais efeitos sobre o ativo imobilizado, o patrimônio líquido e o resultado da companhia.
A ressalva não significa que R$ 2,19 bilhões em bens estejam desaparecidos ou que os 73 trens não existam. O problema apontado é contábil e patrimonial: estabelecer corretamente os valores e registros de ativos que foram adquiridos por um órgão do Estado e utilizados por outra empresa estatal.
O levantamento ainda envolve obras de infraestrutura e sistemas que precisam passar pelo mesmo processo de identificação e conciliação.
Segurança da CPTM (Jean Carlos)
Patrimônio muda com concessões
Esse trabalho ocorre em um momento no qual o patrimônio da CPTM também está sendo alterado pelas concessões ferroviárias.
A transferência da Linha 7-Rubi para a TIC Trens, ocorrida em novembro de 2025, exigiu a reclassificação de ativos relacionados ao serviço. O imobilizado classificado como vinculado a concessões passou de aproximadamente R$ 2,61 bilhões em 2024 para R$ 3,91 bilhões no final de 2025.
Ao mesmo tempo, equipamentos que deixaram de ter utilidade operacional vêm sendo retirados do patrimônio da estatal. Nos últimos anos, isso incluiu trens das séries 2000, 2100 e 3000, parte dos quais posteriormente foi oferecida em leilões como sucata.
Essas movimentações ajudam a explicar por que a leitura das demonstrações da CPTM exige separar resultado operacional, fluxo de caixa, investimentos e patrimônio.
Os cerca de R$ 2,2 bilhões transferidos pelo Estado em 2025 também mostram essa diferença. R$ 1,49 bilhão esteve relacionado ao financiamento do serviço e do custeio da companhia, enquanto R$ 699,4 milhões foram aportados para investimentos.
Nas quatro reportagens desta série, as contas de 2025 mostram uma CPTM estruturalmente dependente do governo estadual, mas por razões mais complexas do que o prejuízo apresentado no balanço. A companhia opera um serviço cuja tarifa é definida pelo próprio Estado, participa de sistemas de integração que alteram a receita recebida por viagem e depende de compensações e subvenções públicas para completar seu financiamento.
Ao mesmo tempo, o Estado exerce outro papel como acionista controlador, aportando recursos para investimentos e incorporando patrimônio à empresa. É essa sobreposição entre política tarifária, financiamento público e estrutura empresarial que faz com que números como prejuízo, subsídio e aumento de capital tenham significados diferentes, embora todos apareçam nas contas da mesma companhia.
