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É possível concluir a Linha 6-Laranja de metrô em apenas 4 anos?

Estimativa feita pelo secretário dos Transportes Metropolitanos Alexandre Baldy envolveria cenário de obras extremamente otimista
O poço de onde sairão os tatuzões: se tudo der certo, Acciona poderia retomar obras em 2020 (Marcia Alves)

Ao ser questionado durante o jornal Bom Dia São Paulo desta segunda-feira (11) sobre o prazo para que a Linha 6-Laranja fique pronta, o secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, estimou que ela “deve ser concluída em até 4 anos de sua retomada”. Nesta quarta-feira, o secretário visitou o VSE Tietê, canteiro de obras onde estão os dois shields (tatuzões) adquiridos pelo Consórcio Metropolitano Linha 6, atualmente desmontados.

Acreditando que o desfecho da negociação entre a Acciona e a Move São Paulo possa se resolver antes de 9 de fevereiro, nova data em que a caducidade do contrato será efetivada caso não haja solução, Baldy afirmou que agora o governo irá “verificar a capacidade de operação e de compra por parte da Acciona, capacidade financeira de retomada e de conclusão de um cronograma físico e financeiro, por parte da empresa espanhola”.

Caso a Acciona consiga de fato assumir a concessão, mesmo que mantendo os atuais sócios com participação, a grande questão é saber se a estimativa de quatro anos é factível. Com 15,3 km de extensão e 15 estações previstas, a Linha 6-Laranja teve na prática cerca de 18 meses de obras e um avanço estimado pelo governo em apenas 15% até setembro de 2016, quando os trabalhos foram suspensos pela Move São Paulo.

Apenas alguns poços foram escavados, o mais adiantado deles justamente o VSE Tietê, que se localiza na Marginal Tietê e de onde partirão as duas tuneladoras em sentido oposto. Uma delas seguirá até a região da estação São Joaquim e a outra até o futuro pátio de manutenção na Brasilândia. São cerca de 9 km  em um sentido e 6 km no outro, no entanto, o trecho sentido norte será escavado em solo rochoso enquanto o trecho sul atravessará uma região de relevo bastante variado além de muitas edificações relativamente altas.

O secretário Alexandre Baldy: estimativa de quatro anos de obras (Marcia Alves)

Baixa velocidade

São justamente os dois “tatuzões” que podem oferecer uma leitura aproximada do desafio da Acciona em concluir a obra o quanto antes, afinal é de todo interesse da concessionária que a linha comece a operar o mais rápido possível. O contrato de 25 anos estima seis anos para construção e 19 anos para operação. Ou seja, terminando antes, mais tempo para gerar caixa.

No entanto, o trabalho dos shields é um dos processos mais delicados e complexos de uma obra dessa envergadura. Embora sejam capazes de escavar cerca de 15 metros de túneis por dia, a média de avanço diário é bem mais baixa por conta de imprevistos e também de pausas para manutenção e deslocamento do imenso equipamento pelas valas das estações.

A Linha 5-Lilás, última a usar o trabalho dos tatuzões em São Paulo, fornece um quadro bastante nítido dessa situação. As três tuneladoras (uma dupla e duas singelas) tiveram que escavar cerca de 10 km de túneis, ou seja, dois terços da distância da Linha 6-Laranja.  Mesmo partindo de poços diferentes, elas levaram ao todo pouco mais de mil dias para concluir as escavações. A tuneladora que teve a melhor média de avanço (batizada de Tarsila) partiu no dia 04 de novembro de 2013 e encerrou sua “viagem subterrânea” no dia 30 de novembro de 2016, após 756 dias.

Média diária de avanço? Apenas 5,6 metros, segundo estimativas do site. Transportando essa realidade para a Linha 6, isso significaria cerca de 1.800 dias até chegar em São Joaquim ou 1.500 dias se a média fosse de 6 metros por dia numa hipótese mais otimista.

Com isso em mente, podemos imaginar que as obras sejam retomadas em meados de 2020 e com isso fosse dada prioridade para a montagem das tuneladoras no poço, que está praticamente pronto para recebê-las. Se isso levasse cerca de seis meses poderíamos supor que o primeiro shield partisse no dia 1º de janeiro de 2021 e a chegada no futuro poço VSE Felicio dos Santos ocorreria em torno de fevereiro de 2025.

Fazendo a conta reversa, em que a Linha 6 fosse concluída por volta de meados de 2024, seria preciso que os trabalhos dos shields fosse finalizado em torno de um ano antes disso. Para que isso ocorresse seria necessário que a escavação diária chegasse a uma velocidade média de 10 metros por dia. É possível? Em tese, sim. Durante os trabalhos na Linha 5, houve trechos em que a velocidade foi parecida ou até maior (12 metros por dia), mas isso sem contar os períodos de parada e que costumam demorar semanas.

Abertura parcial

Claro que essas estimativas são grosseiras e tudo depende do que a Acciona encontrará nos canteiros de obras. Como dissemos, a boa notícia é que quase todos os terrenos já estão liberados para receber as intervenções necessárias, o que certamente ajudará a evitar imprevistos.

Outro aspecto crucial nesse projeto é a possibilidade de abertura parcial da linha. Essa hipótese era considerada no início das obras desde que o trecho pronto ligasse a Linha 6 à algum outro ramal da malha metroferroviária. Nesse caso, a estação-chave chama-se Água Branca. Localizada na avenida Santa Marina, ela será conectada às linhas 7-Rubi e 8-Diamante, da CPTM, e seria um trecho viável para ser aberto em uma primeira fase.

A inauguração de trechos intermediários até São Joaquim também pode ser algo a considerar desde que existam os aparelhos de mudança de via (AMV) próximos. Com isso, o consórcio poderia focar na finalização de estações à medida que os tatuzões liberassem o caminho. Seria uma forma de a operação ter uma curva segura de otimização antes de conectar o ramal com outras linhas movimentadas como a 4-Amarela e a 1-Azul.

Como em toda obra metroviária, existem diversas variáveis difíceis de serem mensuradas por antecedência. Por isso esperar pela Linha 6 em quatro, cinco ou seis anos pode ser algo desgastante. O melhor agora é torcer para que a empresa espanhola comprove ter condições de assumir o projeto e executá-lo dentro do cronograma. Cronograma esse que só saberemos em 2020.

O percurso da Linha 6-Laranja: 15,3 km entre Brasilândia e São Joaquim

 

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Ricardo Meier

É um entusiasta do assunto mobilidade e sobretudo do impacto positivo que o transporte sobre trilhos pode promover nas grandes cidades brasileiras. Também escreve nos sites Airway (aviação) e AUTOO (automóveis).

5 Comentários

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  • Acredito q essa obra tenha um viés politico muito forte, mesmo se a linha começar a operar em operação assistida ou parcial já seria uma “conquista” pro governo, por conta disso acredito que a linha irá operar dentro do prazo, não estando completamente construída, porém operando.

  • Acho que, se sair em 4 anos, vai ser algo similar à inauguração da L4, com duas estações, entregando as outras após esse período.

  • O que eu me pergunto é: o estado mais rico da oitava economia mundial não tem dinheiro pra tocar uma obra dessa e tem que ficar esperando a boa vontade de algum consórcio? Essa obra já era pra estar quase pronta se não tivesse essas interrupções

  • Ja li em outro site q foram escavados os tuneis da brasilandia ate a marginal tiete. As obras foram paralisadas qdo ia inicar o trecho q passa debaixo do rio tiete. Msm assim nao acredito q saia essa linha em 4 anos. Com muito otimismo talvez ate a estaçao higienopolis/mackenzie.

  • Imagino que não seja possível concluir a obra toda em quatro anos, mas creio que hoje em dia há mais olhares voltados para a mobilidade urbana por razões políticas e por termos mais referências por conta da conclusão da linha 5 e parte da 15. As pessoas esperam mais metrô e, mesmo uma abertura parcial da linha 6, provavelmente não seria tão pequena e mal feita como foi com a abertura da linha 4, com apenas duas estações e horário reduzido por anos. Esperemos!

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