Iphan decide não restringir obras na estação 14 Bis-Saracura fora do local de resgate arqueológico

Área 6 continuará isolada para trabalhos manuais de remoção de vestígios, mas decisão não impede trabalhos em outros pontos do canteiro da Linha 6-Laranja

Estação 14 Bis-Saracura em agosto de 2026
Estação 14 Bis-Saracura em agosto de 2026 (Willian Moreira)

A nova manifestação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre os achados arqueológicos da estação 14 Bis-Saracura da Linha 6-Laranja abre caminho para que a Linha Uni retome atividades de engenharia em outras partes do canteiro, paralisado integralmente desde agosto.

A decisão, formalizada pelo Iphan nesta quarta-feira (2), aprova o Relatório Parcial de Monitoramento Arqueológico da chamada Área 6 e estabelece como deverá ocorrer o resgate dos vestígios encontrados no local. O trecho diretamente afetado, porém, continuará isolado e ainda não está liberado para as obras da estação.

Essa distinção é importante. Em 27 de agosto, a Linha Uni confirmou que havia suspendido todas as atividades no canteiro da 14 Bis-Saracura enquanto aguardava as diretrizes do Iphan. A concessionária dizia que somente após essa definição poderia reprogramar a sequência dos trabalhos.

O Ofício nº 898/2026, assinado pelo Instituto entre 1º e 2 de setembro, fornece agora essas diretrizes e deixa expresso que a proteção da Área 6 não impede o “prosseguimento das obras nos demais trechos da Linha 6-Laranja”, desde que mantidos o monitoramento arqueológico e as condicionantes existentes.

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Em manifestação divulgada nesta quarta-feira, o Iphan foi ainda mais direto ao afirmar que “sempre reconheceu a possibilidade de manutenção de outras frentes de trabalho passíveis de execução no empreendimento, não havendo impedimento para sua continuidade”.

Isso não significa, entretanto, que todo o canteiro possa simplesmente voltar à configuração anterior à descoberta. A Linha Uni informou após receber a manifestação que ainda analisa tecnicamente as determinações para avaliar seus impactos e definir a reprogramação das próximas atividades.

Áreas da escavação arqueológica da estação 14 Bis

Área 6 continua bloqueada

A situação é diferente no ponto onde foram encontrados os novos vestígios. O Iphan determinou que locais com achados considerados excepcionais ou relacionados a práticas religiosas de matriz afro-diaspórica permaneçam isolados e protegidos até que o resgate arqueológico seja concluído.

Depois disso, a consultoria responsável terá de apresentar um relatório técnico de escavação ao Instituto. A retomada das obras na área diretamente afetada dependerá da aprovação desse documento pelo órgão federal.

A Área 6 fica junto à Área 4 do Sítio Arqueológico Saracura/Vai-Vai e foi aberta durante o avanço recente das intervenções necessárias à implantação da estação. Como o MetrôCPTM mostrou em agosto, o monitoramento revelou estruturas de alvenaria, drenagem, alicerces, pisos e fragmentos de paredes, além de louças, vidros, ossos de animais, conchas e objetos metálicos e poliméricos.

Parte dos vestígios chamou atenção pela possível relação com práticas religiosas afro-diaspóricas. Foram encontrados bolsões de anil, ossos de animais, fragmentos de ovo, objetos metálicos fixados ao piso e varetas de cipó interpretadas pelos arqueólogos como possíveis atori.

O relatório analisado pelo Iphan considera a possibilidade de que o conjunto corresponda a um espaço sagrado permanente associado à prática do Candomblé. O Instituto não confirma essa identificação como definitiva e ainda aguarda análises laboratoriais sobre os bens encontrados.

Achados arqueológicos da área 6 (IPHAN)

Escavação terá de ser manual

A aprovação do relatório veio acompanhada de uma série de exigências para o resgate.

O Iphan determinou que a Área 6 seja escavada manualmente em níveis artificiais, permitindo registrar pisos, estruturas e objetos dentro de seu contexto original. O mesmo procedimento deverá ser adotado caso apareçam achados semelhantes em outros pontos da estação.

Os trabalhos terão de contar com um profissional de arqueologia com experiência no resgate de sítios relacionados à diáspora africana e com uma autoridade religiosa de matriz afro-diaspórica.

A participação da autoridade religiosa deverá ocorrer especialmente durante a identificação, exposição, registro, remoção e acondicionamento dos vestígios relacionados às práticas religiosas.

Antes da remoção ou desmontagem, estruturas e objetos considerados excepcionais também terão de passar por levantamento fotogramétrico para a geração de modelos tridimensionais.

Novo projeto da estação 14 Bis-Saracura (Reprodução)

Até o concreto pode acompanhar artefato

Uma das determinações mostra o grau de cuidado exigido pelo Iphan para preservar não apenas os objetos, mas a forma como eles foram encontrados.

O documento cita como exemplo um martelo metálico localizado na Área 6 e aparentemente fixado ao piso de concreto. Caso permaneça nessa condição, o objeto não deverá simplesmente ser retirado do chão.

Quando tecnicamente viável, deverá ser removido juntamente com um bloco de aproximadamente 1 m por 1 m do concreto ao seu redor. A intenção é preservar a relação espacial e material entre o artefato e a estrutura na qual foi depositado.

A mesma metodologia deverá ser utilizada em outros achados cuja retirada isolada possa comprometer a interpretação arqueológica ou simbólica do conjunto.

Novas descobertas não paralisam automaticamente o canteiro inteiro

O ofício também estabelece como deverão ser tratados eventuais novos achados durante a construção da estação.

Caso apareçam vestígios ou estruturas semelhantes, deverá ser interrompida imediatamente a atividade apenas no “trecho diretamente afetado”. O local passa então por pesquisa, registro e resgate arqueológico, seguindo metodologia equivalente à definida para a Área 6.

Antigos prazos para construção da estação 14 Bis (Linha Uni)

A retomada naquele ponto dependerá novamente da apresentação e aprovação de relatório técnico pelo Iphan.

A regra é relevante para o andamento da 14 Bis-Saracura porque esclarece que uma nova descoberta não determina automaticamente a paralisação de todo o canteiro. Foi a Linha Uni que decidiu interromper integralmente as atividades em agosto enquanto aguardava uma definição que permitisse reorganizar as frentes de trabalho.

Estação segue como ponto crítico da Linha 6

A 14 Bis-Saracura é a estação mais atrasada da Linha 6-Laranja. Os trabalhos no local já haviam sido profundamente afetados pelas descobertas arqueológicas iniciadas em 2022 e foram retomados gradualmente após liberações anteriores do Iphan.

Em agosto, a estação tinha avanço físico próximo de 15%, enquanto outras partes do ramal se encontravam em estágio muito mais adiantado.

A manifestação do Iphan resolve uma das indefinições que impediam a Linha Uni de reorganizar os trabalhos, mas não elimina a interferência arqueológica sobre a construção. A Área 6 permanece indisponível para a engenharia e seu prazo de liberação dependerá da duração do resgate e da posterior análise do relatório pelo Instituto.

A concessionária ainda não informou quando as demais atividades no canteiro da 14 Bis-Saracura serão retomadas.