Novos achados arqueológicos em estação da Linha 6-Laranja seriam de terreiro de Candomblé
Trabalhos de escavação exigirão escavação manual e podem interferir no avanço da futura estação 14 Bis-Saracura
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) publicou um parecer técnico sobre as novas evidências do Sítio Arqueológico Saracura/Vai-Vai, localizado na área da futura estação 14 Bis da Linha 6-Laranja.
A avaliação consta do Parecer Técnico nº 107/2026, emitido em 13 de agosto, após a análise dos resultados parciais do monitoramento arqueológico da chamada Área 6. Técnicos do instituto também visitaram o local no último dia 10, acompanhados de representantes da Linha Uni, Artesp, consultoria arqueológica e integrantes do Movimento Mobiliza Saracura/Vai-Vai.
A Área 6 foi identificada pela empresa A Lasca, contratada da Linha Uni. Ela mede 29 por 11 metros e fica ao lado da Área 4, onde trabalhos anteriores já haviam encontrado estruturas arqueológicas. Segundo o relatório analisado pelo Iphan, a posição da nova área permitiu verificar a continuidade espacial de elementos registrados durante o resgate anterior.
Os novos achados surgiram durante a remoção mecanizada de pilares de concreto. Tijolos maciços aderidos às estruturas levaram a equipe a iniciar uma escavação manual, que revelou sistemas de drenagem, alicerces, pisos e fragmentos de paredes que formavam diferentes cômodos.
Na parte inferior, a Área 6 (IPHAN)
Também apareceram louças, vidros, ossos de aves, conchas e objetos metálicos e poliméricos. Em um dos ambientes, os arqueólogos encontraram uma cavidade aparentemente construída para o enterramento de peças, o que levantou a hipótese de se tratar de um fundamento de terreiro de Candomblé.
Outros vestígios reforçaram essa interpretação. Entre eles estão um martelo de ferro fixado ao piso, dois bolsões de anil — chamado de Waji ou Uáji e empregado em atividades rituais de Candomblé — associados a ossos bovinos e suínos, além de um ovo de galinha fragmentado e outra peça de ferro com pregos presa ao piso.
Fragmentos de varetas de cipó encontrados verticalmente também podem corresponder a um “atori”, instrumento vegetal de importância ritual em tradições de matriz africana.
A disposição desses elementos levou a equipe arqueológica a considerar que o local não teria funcionado apenas como ponto provisório ou de passagem. Para o Iphan, há evidências de um espaço sagrado permanente, organizado para práticas contínuas de um terreiro de Candomblé. O instituto considera que o local pode ter “excepcional relevância histórica, arqueológica, científica e cultural”.
Achados arqueológicos da área 6 (IPHAN)
Escavação terá de ser manual
O parecer aprovou o relatório parcial, mas estabeleceu uma série de procedimentos para a continuidade dos trabalhos arqueológicos.
Na Área 6, a escavação deverá ocorrer manualmente, em níveis artificiais, para expor pisos, estruturas e outros vestígios considerados excepcionais ou inéditos. O mesmo procedimento deverá ser adotado em outras áreas caso surjam elementos dessa natureza.
O trabalho também terá acompanhamento de uma autoridade religiosa de matriz afro-diaspórica, cuja presença deverá ser providenciada pela Linha Uni e a A Lasca. O Iphan ainda determinou levantamento fotogramétrico e geração de um modelo tridimensional do local.
As estruturas associadas às práticas religiosas deverão ser desmontadas manualmente e de maneira contextualizada. Objetos fixados aos pisos não poderão simplesmente ser retirados isoladamente, já que deverá ser preservada a relação espacial e simbólica entre os diferentes elementos encontrados.
Uma questão importante, no entanto, continua sem decisão. A possibilidade de retirar integralmente determinadas estruturas para remontá-las posteriormente, procedimento adotado anteriormente na Área 4, será submetida à Presidência do Iphan.
Achados arqueológicos da área 6 (IPHAN)
Obra pode continuar, mas estação depende da área
O parecer permite que as obras prossigam nos demais trechos sob monitoramento arqueológico. Caso novos vestígios semelhantes sejam encontrados, o procedimento será interromper apenas o trecho diretamente afetado, realizar a pesquisa e o resgate e, posteriormente, liberar a área.
Isso não significa, entretanto, que os trabalhos arqueológicos na Área 6 sejam independentes do cronograma de implantação da estação 14 Bis.
A construção da estação exige uma grande escavação até a cota dos túneis da Linha 6. Durante a passagem das tuneladoras pelo local, foram instaladas aduelas de concreto formando provisoriamente o túnel, permitindo que os equipamentos continuassem seu percurso em direção a São Joaquim.
Esse segmento precisará ser posteriormente removido para a execução da estrutura definitiva da estação, incluindo a laje destinada às vias e plataformas. Assim, mesmo que outras frentes possam avançar, uma evolução mais lenta da escavação arqueológica interfere na sequência dos trabalhos necessários para completar a estação.
É uma situação diferente de uma paralisação integral da obra da Linha 6. O impacto tende a ficar concentrado na região da 14 Bis, mas uma estação não pode ser concluída enquanto uma parcela essencial de sua estrutura permanece condicionada ao trabalho arqueológico.
O parecer técnico também não encerra a discussão sobre o futuro dos achados. O próprio Iphan ressalta que o documento serve para fundamentar suas decisões administrativas e não deve ser interpretado como manifestação conclusiva do órgão.
O instituto ainda aguarda o relatório de laboratório com análises, interpretações e conclusões sobre os bens encontrados, além das fichas dos bens arqueológicos móveis e de outros documentos previstos na legislação.
