O Metrô e a CPTM tiveram um aumento expressivo na demanda em junho, segundo dados divulgados pelas duas empresas e também as concessionárias ViaQuatro e ViaMobilidade. No entanto, esse volume extra, de pouco mais de 32%, ainda representa uma pequena parcela do movimento de passageiros que existia antes da pandemia do coronavírus.

Segundo dados apurados pelo site, o sistema sobre trilhos em São Paulo realizou 61,4 milhões de viagens em junho, considerando nesse dado múltiplas conexões dos usuários. Trata-se de uma demanda 64% menor do que a que existiu em junho de 2019, quando quase 170 milhões de embarques foram realizados. Ainda assim é cerca de 50% mais do que abril deste ano, o “fundo do poço”, com 42 milhões de viagens.

Em números absolutos, seria como perder uma arrecadação de cerca de R$ 480 milhões caso cada embarque fosse cobrado pela tarifa cheia. O valor real, no entanto, é sensivelmente menor por conta da baldeações gratuitas e outras concessões do governo. Ainda assim, não há dúvida que se trata de um prejuízo de seis dígitos apenas em um mês.

Assim como tem ocorrido em outros meses, a queda na demanda de passageiros foi irregular nas 13 linhas ferroviárias de São Paulo. Novamente comparando o mês de junho com o mesmo período de 2019, a linha mais afetada pela quarentena foi a 4-Amarela, operada pela ViaQuatro: nada menos que 70,7% de queda no número total de viagens. Não por acaso, a Linha 9-Esmeralda, da CPTM, que é conectada à Linha 4, apresentou uma redução próxima, de 69,6%, praticamente o mesmo das linhas 1-Azul e 2-Verde.

Na outra ponta da lista, dois ramais da CPTM foram os que menos perderam passageiros no mês passado, as linhas 12-Safira (menos 48,4%) e 11-Coral (-50,9%). Como se tem notado, o grande número de trabalhadores que residem no extremo leste de São Paulo e que possivelmente não puderam aderir ao trabalho remoto, acabaram mantendo a demanda elevada nessas linhas. Por falar na região, a Linha 3-Vermelha lidera em movimento desde que o governo do estado determinou o isolamento social. Passaram por ela mais de 11,5 milhões de passageiros em junho.

Exceção na região sul, a Linha 5-Lilás está transportando números próximos das linhas 2 e 4 quando o normal é um movimento 25% menor. Por fim, a volta da Linha 15-Prata à operação em junho ainda foi num ritmo bastante lento. Passaram pelo ramal de monotrilho cerca de 663 mil usuários, cerca de um quarto da demanda de fevereiro, antes que um incidente com um pneu fizesse a linha ser paralisada por meses.

Movimento de passageiros nas 13 linhas em 2020. Total de embarques por mês

Contas do Metrô atrasadas

A situação do transporte sobre trilhos não deve retornar ao normal tão cedo diante dos níveis ainda elevados de casos de Covid-19. Segundo estimativa obtida pelo site, o movimento de julho deve crescer cerca de 20%, o que faria o número atingir algo como 74 milhões de viagens, ou pouco mais da metade do volume em tempos normais.

O distanciamento social tem sido um assunto polêmico no transporte público por conta do fato de que não existe viabilidade econômica de manter vagões tão vazios, conforme determinam as recomendações sanitárias. Assim como ampliar a oferta de trens num sistema já sobrecarregado. Complica ainda mais esse cenário o fato de que Metrô e CPTM têm vários funcionários afastados.

O reflexo disso é que o caixa das operadoras do transporte público estão à míngua. No Rio de Janeiro, há o risco de trens do Metrô e da Supervia pararem em agosto diante do agravamento da situação financeira das concessionárias. Já em São Paulo, o Metrô tem atrasado o pagamento de seus fornecedores, como mostram publicações no Diário Oficial.

Diante desse quadro, os secretários de transporte de quatro estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco – publicaram um artigo no jornal Folha de São Paulo alertando para os riscos de colapso. “O transporte de massa não funciona sem aglomerações. De outro lado, é preciso, mais do que nunca, garantir a continuidade dos serviços com todas as observâncias sanitárias, circunstância que remete, invariavelmente, a uma política nacional de financiamento da mobilidade —até hoje inexistente”, diz o texto.

Para os responsáveis pelo transporte coletivo, “é chegada a hora de buscar uma solução que passe pela coordenação nacional e que aponte para o financiamento da mobilidade de forma robusta e sustentável. A participação da União no assunto é inadiável, e os nossos congressistas, a esse respeito, precisam contribuir com as medidas legislativas que ajudem a equacionar o problema. Algum apoio, a esta altura, tem que vir. A conta, com a Covid-19, para o transporte público de passageiros, mais do que nunca, não fechará apenas com o pagamento dos usuários”, conclui.