Alstom deve concluir trens da Linha 6 neste ano sem nova encomenda no Brasil
Fabricante afirma que exportações são essenciais para manter fábrica de Taubaté, enquanto CRRC amplia presença no mercado brasileiro
A Alstom pretende concluir até o fim deste ano a entrega dos 22 trens encomendados para a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo. Com o encerramento do contrato, porém, a fábrica da companhia em Taubaté ficará sem uma nova encomenda de trens para o mercado brasileiro, após a fabricante francesa perder espaço para a chinesa CRRC em algumas das principais compras recentes de material rodante no país.
A previsão foi revelada por Suely Sola, diretora-geral da Alstom Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo. Segundo a executiva, o cronograma previa inicialmente a entrega de 11 composições até setembro, número que já foi superado. O 14º trem chegou ao Pátio Morro Grande na sexta-feira (14).
Sola também trouxe uma informação sobre a operação assistida da Linha 6. Segundo ela, quatro composições estão atualmente preparadas para o serviço. Duas são utilizadas na circulação entre João Paulo I e Perdizes e outras duas permanecem como reserva.
O número ajuda a dimensionar a diferença entre o ritmo de fabricação e o estágio atual do ramal. A operação assistida utiliza apenas um trem em cada via, de segunda a sexta-feira, entre 10h e 15h. A infraestrutura da linha ainda passa por obras e testes antes da ampliação gradual do serviço.
Com as entregas adiantadas, a Alstom espera completar as oito unidades restantes até dezembro.
Fábrica da Alstom em Taubaté (Divulgação)
Fábrica passa a depender de contratos externos
A conclusão da encomenda da Linha 6 encerra uma sequência importante de produção para o mercado brasileiro em Taubaté. Antes dos 22 trens do novo ramal, a unidade produziu as 36 composições da Série 8900 adquiridas para as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.
Sem uma nova encomenda nacional na carteira, a Alstom tem recorrido ao mercado externo para manter a atividade da fábrica. Na entrevista à Folha, Sola afirmou que produzir para outros países se tornou uma questão de sobrevivência diante das oscilações históricas das encomendas ferroviárias brasileiras.
A companhia afirma ter investido R$ 130 milhões na fábrica de Taubaté nos últimos cinco anos. Segundo a executiva, mais de 170 trens, equivalentes a 940 carros, foram entregues pela unidade nos últimos três anos para projetos brasileiros e estrangeiros, incluindo encomendas destinadas ao Chile, Romênia e Taiwan.
A Alstom também aproveitou a entrevista para defender melhores condições de concorrência para fabricantes instalados no Brasil. A empresa argumenta que a produção local gera empregos e movimenta uma cadeia de fornecedores que não acompanha necessariamente os equipamentos importados.
O discurso surge em um momento particularmente desfavorável para a companhia no mercado brasileiro de trens de passageiros.
Novos trens do Metrô serão fabricados pela CRRC (GESP)
CRRC acumula contratos
A chinesa CRRC conquistou uma série de encomendas recentes, entre elas o contrato de R$ 3,1 bilhões para fornecer os 44 trens da nova Frota R do Metrô de São Paulo. A disputa teve participação da própria Alstom, que acabou superada pela concorrente chinesa.
As composições serão utilizadas nas linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha. A CRRC estabeleceu uma estrutura em Araraquara para realizar parte das atividades relacionadas ao contrato, mas não possui no país uma fábrica de trens equivalente à unidade mantida pela Alstom em Taubaté.
A fabricante chinesa também conquistou contratos para ampliar as frotas das linhas 4-Amarela e 5-Lilás. No Metrô de Salvador, Alstom e CRRC chegaram a disputar diretamente a encomenda de dez novos trens, com vantagem para a companhia chinesa.
Nem todos os contratos recentes, no entanto, resultaram de disputas entre as duas fabricantes. A Alstom não participou de todas as concorrências vencidas pela CRRC, o que impede tratar toda a expansão da empresa chinesa como uma sequência de derrotas comerciais da companhia francesa.
Há ainda projetos nos quais a CRRC aparece ligada aos próprios grupos responsáveis pelas concessões. É o caso do Trem Intercidades Eixo Norte e do Metrô de Belo Horizonte, situação diferente de uma concorrência independente para aquisição de material rodante.
Trem da Linha 4-Amarela que será fabricado pela CRRC (Reprodução)
Tarifa maior para vagões de carga
A discussão sobre a competição chinesa também chegou ao governo federal. O Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior aprovou a elevação para 30% da tarifa de importação aplicada a determinados vagões ferroviários de carga, pelo período de dois anos.
A medida é restrita a vagões cobertos e fechados destinados ao transporte de mercadorias e, portanto, não alcança os trens metropolitanos de passageiros que têm sido fornecidos pela CRRC. O pleito havia sido apresentado por representantes da indústria brasileira de materiais e equipamentos ferroviários.
A situação deixa a fábrica de Taubaté diante de um cenário diferente daquele observado nos últimos anos. A Alstom ainda possui encomendas internacionais em produção, mas, depois que os últimos trens da Linha 6-Laranja deixarem a unidade, não há até agora outro contrato brasileiro de material rodante para ocupar seu lugar.
