O que impede que os trens de metrô se choquem?

Graças ao sistema de sinalização, surgido há mais de 50 anos, composições circulam de forma automática e segura nos trilhos
Trem de metrô: sistema de automação da operação já completou mais de 50 anos (GESP)

Para quem não acompanha o setor metroferroviário de perto e faz uso dos trens do Metrô e da CPTM com alguma regularidade, teve ter se perguntado em algum momento “afinal, o que impede que os trens se choquem?”. Certamente ainda causa espanto em muitos passageiros ver as composições da Linha 4-Amarela e do monotrilho da Linha 15-Prata sem condutores, por exemplo. Com intuito de esclarecer esses temas técnicos de forma acessível ao público, o site passa a publicar artigos em uma nova seção, “Além dos Trilhos”.

Nos últimos tempos, as linhas de metrô e trens metropolitanos têm sido criticadas pelo seu alto custo e número de falhas, argumentos geralmente utilizados por críticos favoráveis à implantação dos chamados “BRT”, corredores com características emprestadas justamente do setor metroferroviário. O que pouca gente lembra ou ressalta é que um sistema sobre trilhos possui uma complexidade e segurança só comparável à da aviação.

Enquanto ônibus ainda circulam por ação exclusivamente humana, inclusive em relação à segurança (algo que a tecnologia autônoma deve mudar num futuro breve, vale lembrar), trens se movimentam por meio de sistemas automáticos há mais de 50 anos – a estreia ocorreu no Metrô de Londres em 1968 com a Victoria Line.

É o uso dessa tecnologia que permitiu que hoje linhas de metrô como a 1-Azul e a 3-Vermelha possam transportar diariamente mais de 1,5 milhão de passageiros com algumas dezenas de trens. Para fazer algo semelhante em um sistema rodoviário seria preciso de vias imensas e centenas de veículos e sem o mesmo nível de segurança e redução de poluentes, para citar dois aspectos.

Mas, afinal, o que impede que os trens de metrô se choquem em movimento?

A resposta está no sistema de sinalização, que utiliza sensores e softwares para controlar o deslocamento de cada composição na via.

Como os trens são mantidos em distâncias seguras

O mais conhecido deles é o ATC (Autommatic Train Control) e utilizado em níveis diferentes no Metrô e na CPTM. Esse sistema utiliza o método de blocos em que a presença de um trem em um dos trechos bloqueia a entrada de outra composição no bloco anterior. Esse intervalo garante que esses trens não se aproximem em hipótese nenhuma. O ponto fraco do ATC é que o tamanho dos blocos determina a velocidade e o intervalo entre os trens e por isso uma nova tecnologia tem sido implementada em linhas novas e antigas, o CBTC.

Quem acompanha nosso site já leu centenas de vezes o termo CBTC, tradução para Controle de Trens Baseado em Comunicação. Trata-se de um sistema que utiliza sinais de rádio presentes em cada composição para ter um panorama em tempo real da posição de cada um deles. É como se todos os trens estivessem conectados e andando virtualmente presos uns aos outros. É ele que é usado hoje nas linhas 2-Verde 4-Amarela, 5-Lilás e 15-Prata do Metrô de São Paulo. Sua vantagem é proporcionar uma viagem mais suave e ao mesmo reduzir os intervalos entre trens que podem circular mais perto sem risco à segurança.

Piloto automático

Mas então por que os trens possuem operadores nas cabines? Sua função varia de acordo com o grau de automação do sistema, conhecido pela sigla GoA, e que vai de 0 a 4. Uma composição GoA 0 é comum um ônibus comum, está totalmente dependente de seu condutor, que acelera, freia, aciona portas e outras funções. Já o GoA 4 se traduz pela automação total, quando é possível circular sem um operador in loco – é o caso da Linha 4-Amarela, pioneira na tecnologia no Brasil e razão da ausência de cabine em seus trens.

CCO da CPTM: exército que coordena os trens à distância (GESP)

A maior parte das linhas de metrô e trens metropolitanos possui tecnologia GoA 2, que significa uma operação semi-automática. Ou seja, o movimento dos trens é feito pelo sistema, com aceleração e frenagem automáticas e em alguns casos abertura e fechamento das portas, mas operador executa outras funções, além de supervisionar o funcionamento dos equipamentos e atuar em casos específicos.

Em São Paulo, Metrô e CPTM operam com o ATC nas demais linhas, porém, no segundo caso o operador movimenta os trens dentro de protocolos de velocidade e sob orientação do Centro de Controle Operacional, o CCO.

É nessa central que a operação é coordenada por uma grande equipe que trabalha em conjunto com os operadores de trens. Em imensos mapas com dezenas de informações, esses profissionais garantem a segurança e qualidade da operação, um exército invisível que mantém o Metrô e a CPTM funcionando 24 horas por dia, 365 dias por ano. Sim, embora o serviço seja interrompido durante a madrugada, o trabalho de controlar as vias segue sem intervalos afinal é preciso coordenar os trabalhos de manutenção e, no caso da CPTM, orientar trens de carga que passam pela região metropolitana de São Paulo.

Trem da CPTM: companhia opera em um nível com menos automação, mas deve evoluir nesse sentido em breve (GESP)

Falhas existem? Sim, mas são mínimas

Como se sabe, não há sistema infalível e no caso de trens de passageiros, a comoção é quase tão grande quanto à da aviação, onde qualquer incidente mais chamativo é motivo de destaque na mídia. Da mesma forma, um choque ou descarrilamento sempre é noticiado com grande repercussão.

Novamente se apoiando nos aviões, um problema com trens ocorre após uma sequência de falhas e não por um problema isolado. Um caso como o ocorrido no monotrilho da Linha 15 que resultou no choque de dois trens tem sido raro e certamente foi motivado pela não observância de várias medidas de segurança.

Embora não se deve menosprezar um acidente que se preze, é fato que a quantidade de problemas graves em sistemas bem estruturados é ínfima diante das milhares de viagens realizadas diariamente nos principais sistemas metroferroviários do mundo. É isso que torna nossa viagem mais tranquila e confortável.

Os monotrilhos acidentados: choques ocorrem, mas são raros (Yamas75/Instagram)

 

Total
95
Shares
2 comments
  1. O metrô de SP é exemplo a ser seguido no país. Infelizmente os corneteiros de plantão sempre vão criticar o serviço que, como se viu na matéria, é de extrema complexidade.

Comments are closed.

Previous Post

Governo do estado prepara novo plano integrado de transportes urbanos

Next Post

Caso raro, CPTM pretende entregar nova estação Francisco Morato antes do prazo

Related Posts