Quanto custa transportar um passageiro da CPTM e quem paga essa conta?

Em 2025, custo médio ficou em R$ 9,17 por passageiro, enquanto apenas R$ 2,93 vieram diretamente da receita de transporte ferroviário

Estação Brás
Estação Brás (CPTM)

Na segunda parte da nossa série de reportagens, vamos abordar quanto custa para a CPTM transportar um passageiro. A resposta ajuda a entender por que a estatal paulista depende de recursos do governo mesmo cobrando tarifa e transportando centenas de milhões de pessoas por ano.

Em 2025, as despesas da CPTM ficaram em aproximadamente R$ 3,12 bilhões. No mesmo período, a companhia contabilizou 340,3 milhões de passageiros em seu indicador de demanda, que considera usuários pagantes, gratuidades e meia tarifa. A divisão resulta em um custo médio de cerca de R$ 9,17 por passageiro.

Isso não significa que a tarifa deveria custar R$ 9,17. Parte do transporte público é deliberadamente financiada pelo Estado e existem gratuidades, integrações e outros mecanismos da política tarifária que impedem uma comparação direta entre custo médio e o preço cobrado na catraca.

A conta, no entanto, revela o tamanho da diferença entre o que a CPTM arrecada diretamente com o transporte e o necessário para manter sua operação.

Dos R$ 9,17 gastos por passageiro em 2025, apenas R$ 2,93 correspondem à receita contabilizada pela CPTM como transporte ferroviário. A companhia registrou R$ 996,2 milhões nessa rubrica durante o ano.

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A tarifa básica era de R$ 5,20 em 2025 e passou para os atuais R$ 5,40 em janeiro deste ano. Mesmo assim, não seria correto multiplicar o número de passageiros pela tarifa cheia para estimar a arrecadação da CPTM. Nem todos pagam esse valor e, mesmo entre aqueles que o fazem, as regras de integração e repartição da receita interferem no montante que efetivamente chega à empresa.

Receita média subiu, mas custo ainda é muito elevado (Metrô CPTM)

Estado completa receita das viagens

Além dos R$ 996,2 milhões provenientes da receita de transporte ferroviário, a CPTM reconheceu outros R$ 374,1 milhões como recomposição tarifária em 2025.

Esse mecanismo está diretamente relacionado às regras de distribuição do dinheiro arrecadado pelo sistema de transporte público. Segundo as demonstrações financeiras da companhia, a recomposição cobre viagens realizadas pela CPTM que não foram remuneradas pela câmara de compensação, ou clearing, responsável pela repartição dos recursos.

Em termos médios, a recomposição tarifária representou mais R$ 1,10 por passageiro transportado no ano.

Outra parcela veio das gratuidades. A CPTM contabilizou R$ 282,2 milhões em ressarcimentos do Estado por essas viagens, equivalentes a aproximadamente R$ 0,83 por passageiro.

Estação da Luz (CPTM)

Somadas, as três rubricas diretamente relacionadas ao transporte chegaram a aproximadamente R$ 1,65 bilhão em 2025. Isso corresponde a uma receita média de R$ 4,86 por passageiro.

Desse valor, portanto, R$ 2,93 vieram da receita de transporte propriamente dita e cerca de R$ 1,93 foram reconhecidos como recomposição tarifária e ressarcimento das gratuidades.

Ainda assim, os R$ 4,86 permanecem bastante abaixo dos R$ 9,17 de custo médio.

Subvenção adiciona outros R$ 886 milhões

É nesse ponto que aparece outra fonte importante de financiamento da CPTM. Em 2025, a companhia recebeu R$ 886,2 milhões em subvenção para custeio do Estado de São Paulo.

Dividido pela demanda registrada no período, o valor corresponde a aproximadamente R$ 2,60 por passageiro.

Essa subvenção é diferente da recomposição tarifária. Enquanto a segunda está vinculada a viagens realizadas pela CPTM que não foram remuneradas pelas regras de repartição da arrecadação, a subvenção é um recurso destinado ao custeio da empresa.

Trem da Linha 11-Coral em Corinthians-Itaquera (Metrô CPTM)

Também não deve ser confundida com os R$ 699,4 milhões recebidos pela CPTM em 2025 como Adiantamentos para Futuro Aumento de Capital (AFAC). Esses recursos foram destinados ao programa de investimentos da companhia e não constituem receita utilizada simplesmente para cobrir seu prejuízo operacional.

A combinação dessas diferentes fontes mostra por que não existe uma relação direta entre a tarifa paga na catraca e o custo de transportar um passageiro. O financiamento passa pela arrecadação tarifária, compensações decorrentes das regras do sistema, ressarcimento das gratuidades e subvenções do Tesouro.

Custo por passageiro pouco mudou

A comparação com os dois anos anteriores revela ainda que o custo médio por passageiro da CPTM permaneceu praticamente estável, mesmo antes de descontada a inflação.

Em 2023, quando a companhia registrou cerca de 319,5 milhões de passageiros, suas despesas ficaram em aproximadamente R$ 2,95 bilhões. O custo médio foi de R$ 9,23 por passageiro.

No ano seguinte, com 338,4 milhões de passageiros e despesas de R$ 3,15 bilhões, o indicador ficou em R$ 9,30.

Em 2025, a demanda chegou a 340,3 milhões e as despesas recuaram ligeiramente para R$ 3,12 bilhões. Com isso, o custo médio caiu para R$ 9,17.

Série 7500 devolvido para a CPTM (Jean Carlos)

Entre 2023 e 2025, portanto, a demanda cresceu cerca de 6,5%, enquanto as despesas aumentaram aproximadamente 5,8%. Em valores nominais, o custo médio para transportar um passageiro terminou o período ligeiramente abaixo daquele registrado dois anos antes.

A receita associada ao transporte apresentou evolução mais forte. Considerando receita ferroviária, recomposição tarifária e ressarcimento das gratuidades, ela passou de cerca de R$ 1,35 bilhão em 2023 para R$ 1,59 bilhão em 2024 e R$ 1,65 bilhão em 2025.

Por passageiro, isso corresponde a aproximadamente R$ 4,23 em 2023, R$ 4,70 em 2024 e R$ 4,86 no ano passado.

A relação entre essa receita e o custo médio melhorou de cerca de 46% em 2023 para 51% em 2024 e 53% em 2025.

Tarifa não determina sozinha a receita

Os números também mostram por que reajustar a tarifa não significa automaticamente aumentar na mesma proporção os recursos disponíveis para a CPTM.

A tarifa permaneceu em R$ 4,40 entre 2020 e 2023. Foi elevada para R$ 5 em janeiro de 2024 e para R$ 5,20 no início de 2025. Desde janeiro de 2026, o valor básico do transporte sobre trilhos é de R$ 5,40.

Mas a CPTM não recebe R$ 5,40 para cada passageiro que entra em seus trens. Além das gratuidades e meias tarifas, existe uma extensa rede de integrações e regras de divisão da arrecadação entre diferentes operadores.

Bloqueio na estação Luz (Willian Moreira)

É justamente essa estrutura que ajuda a explicar por que uma companhia que transporta mais de 300 milhões de passageiros por ano continua dependendo de recursos do Tesouro.

A dependência não é consequência apenas do resultado negativo apresentado ao final de cada exercício. Ela está incorporada ao próprio modelo de financiamento do transporte metropolitano paulista, no qual o governo define a tarifa cobrada do passageiro e depois utiliza recursos públicos para complementar o custo do serviço.

Na próxima reportagem da série, o MetrôCPTM mostrará como funciona esse sistema, por que parte das viagens realizadas pela CPTM não é remunerada diretamente pela arrecadação tarifária e como Bilhete Único, TOP, clearing e subsídios interferem no dinheiro que efetivamente chega à estatal.

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