Tarcísio descarta concessão das linhas do Metrô em eventual segundo mandato
Governador voltou atrás em plano apresentado no início de sua gestão e defendeu transferência da CPTM à iniciativa privada
O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), descartou conceder à iniciativa privada as quatro linhas atualmente operadas pelo Metrô caso permaneça no cargo por mais quatro anos.
“Não, não vai ser privatizado”, respondeu Tarcísio nesta quarta-feira (26), durante sabatina promovida pela revista Veja, ao ser questionado sobre uma eventual privatização do Metrô.
Embora tenha utilizado o termo apresentado pelos entrevistadores, o que esteve em estudo pelo governo paulista não era propriamente a privatização da Companhia do Metropolitano de São Paulo, mas a concessão de suas linhas para operadores privados.
A diferença é relevante. O plano discutido pelo governo previa transferir a operação e manutenção dos ramais por meio de contratos de concessão, como já ocorre nas linhas 4-Amarela e 5-Lilás. Isso não implicaria necessariamente a extinção ou venda da Companhia do Metrô.
A estatal possui corpo técnico responsável por planejamento, engenharia e desenvolvimento de projetos e há anos comercializa esse conhecimento por meio do Metrô Consulting, que presta serviços especializados no Brasil e no exterior. O próprio Metrô também fornece estudos e subsídios técnicos utilizados em processos de concessão de linhas metroviárias.
Governador Tarcísio de Freitas (Jean Carlos)
Mudança nos planos
A declaração desta quarta-feira consolida uma mudança significativa em relação aos primeiros anos da gestão Tarcísio.
Em abril de 2024, o governador revelou que estudava conceder as linhas então operadas diretamente pelo Metrô em conjunto com novos projetos. Uma das possibilidades citadas era associar a Linha 3-Vermelha à futura Linha 16-Violeta e a Linha 1-Azul à futura Linha 20-Rosa.
O discurso começou a mudar posteriormente. Em junho, em entrevista ao MetrôCPTM, Tarcísio afirmou que as concessões das linhas do Metrô não estavam no radar naquele momento e que o governo concentraria esforços nos projetos envolvendo a CPTM.
Em junho deste ano, durante entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, ele foi além e disse não haver intenção de conceder as linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata. Na ocasião, mencionou inclusive o risco de concentração da operação metroferroviária nas mãos de poucos grupos privados.
Agora, já durante a campanha eleitoral, Tarcísio respondeu mais uma vez que o Metrô continuará público em eventual segundo mandato.
Trem S30 da Frota S durante testes na estação Jardim Colonial, Linha 15-Prata ((MetrôCPTM))
Linha 3 como exemplo
Ao justificar sua posição, o governador afirmou que concessões não são realizadas simplesmente para transferir ativos públicos à iniciativa privada.
“A gente não faz privatização por fazer. A gente faz para chegar a um objetivo, para tentar melhorar um serviço”, afirmou.
Tarcísio citou então a Linha 3-Vermelha, afirmando que ela teria sido a linha com maior quantidade de problemas no primeiro semestre deste ano. Também relacionou a situação à enorme demanda do ramal, que transporta cerca de um milhão de passageiros em dias úteis.
A demanda, no entanto, explica apenas parte da pressão operacional enfrentada pela Linha 3.
O ramal possui uma característica particularmente difícil: seu movimento é fortemente pendular. No pico da manhã, enormes volumes de passageiros partem da Zona Leste em direção ao centro; no período da tarde e noite, o fluxo se inverte.
Trem na Linha 3-Vermelha (Márcia Alves/CMSP)
Isso faz com que os trens trabalhem extremamente carregados em um sentido enquanto transportam muito menos passageiros no sentido contrário. A Linha 1-Azul registra demanda diária total superior à da Linha 3, mas possui um movimento mais distribuído ao longo de suas 23 estações e nos dois sentidos.
A Linha 3 também convive com uma limitação tecnológica que deveria ter sido eliminada há muitos anos. Ela continua operando comercialmente com o sistema de sinalização ATC, enquanto o CBTC já é utilizado nas demais linhas operadas pelo Metrô.
O contrato para implantação do CBTC nas linhas 1, 2 e 3 remonta à década passada e acumulou uma longa sequência de problemas. O sistema entrou em operação na Linha 2-Verde e posteriormente na Linha 1-Azul, mas Metrô e Alstom ainda trabalham para colocá-lo em funcionamento na Linha 3.
A modernização é especialmente importante no ramal devido ao perfil de demanda e à necessidade de operar intervalos reduzidos. O CBTC permite acompanhar com maior precisão a posição dos trens e reduzir a separação entre as composições em relação ao sistema convencional.

CPTM segue caminho diferente
Tarcísio contrapôs a decisão sobre o Metrô à política adotada para a CPTM. Segundo o governador, a companhia ferroviária acumulou dificuldades para realizar os investimentos necessários na infraestrutura.
Durante a entrevista, ele voltou a defender a transferência das linhas de trens metropolitanos à iniciativa privada e citou os investimentos previstos nos contratos para modernização de vias, energia, sinalização e estações.
A política praticamente retirou da CPTM sua função histórica de operadora. As linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda foram concedidas em 2021, a Linha 7-Rubi passou para a TIC Trens e as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram concedidas no Lote Alto Tietê.
Resta a Linha 10-Turquesa, cuja concessão também está nos planos do governo estadual.
Assim como ocorre com o Metrô, porém, a saída da operação ferroviária não significa necessariamente o desaparecimento da CPTM. A estatal vem ampliando a CPTM Serviços, área voltada à venda de conhecimento técnico em planejamento, engenharia, auditoria e apoio operacional.
A diferença é que, no caso do Metrô, Tarcísio agora afirma que nem mesmo a transferência das linhas atualmente públicas deverá prosseguir. Se mantida a posição apresentada nesta quarta-feira, as linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata continuarão sob operação direta da estatal durante um eventual segundo mandato.
