Destaques Trem de Alta Velocidade

“Trem-bala” brasileiro deveria ter estreado nesta semana, segundo planos do governo

Projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV), tocado durante gestões do PT, tinha previsão de funcionar até 30 de junho de 2020, de acordo com relatório de 2012
Segundo previsão da ANTT, trem-bala deveria ter estreado entre Campinas, São Paulo e Rio até terça-feira passada (Sergey Korovkin 84)

Na terça-feira, 30 de junho, trens de alta velocidade deveriam ter partido de Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro em viagens que levariam entre 1 hora e 30 minutos e 2 horas entre essas cidades. Os passageiros a bordo dessas composições viajariam a uma velocidade média de 350 km/h com paradas nos aeroportos internacionais do Galeão e de Guarulhos e no centro das três metrópoles. Com isso, as viagens realizadas por automóveis, ônibus e aviões seria reduzida brutalmente, melhorando a qualidade do ar e tornando a ligação dessas cidades mais atraente.

O cenário, como se sabe, é utópico, mas foi imaginado há cerca de oito anos. Em 2012, a ANTT, Agência Nacional de Transportes Terrestres, estimava que o TAV (Trem de Alta Velocidade) entre Campinas e Rio, com parada em São Paulo, estaria operando até 30 de junho de 2020. Essa era data limite no planejamento do governo Dilma Rousseff (PT), mas o trem-bala brasileiro já era motivo de projetos bem antes disso.

Em 2007, o governo Lula iniciou os estudos do TAV nesse trecho, imaginando que o trem pudesse abocanhar mais da metade da demanda de passageiros nesse eixo, algo como 18 milhões de usuários por ano num cenário hipotético em 2008. Assim como em outros projetos petistas, as projeções eram bem exageradas: em 2044, por exemplo, seriam realizadas quase 100 milhões de viagens por ano nesse sistema ou doze vezes o total de viajantes entre as duas maiores cidades brasileiras em 2006, incluindo avião, automóvel e ônibus.

Ainda contando com a entrega do projeto a tempo de ser usado na Copa do Mundo, o governo tentou licitá-lo em 2010, mas acabou adiando o leilão várias vezes até 11 de julho de 2011. A contragosto de possíveis interessados, que pediam mais tempo para analisar o projeto (o qual consideravam ‘barato’ demais), o governo Lula abriu o certame na Bolsa de Valores de São Paulo, mas ninguém apareceu.

Em 2012, quando a ANTT estipulou que o TAV deveria ser entregue até junho de 2019 e imaginava um possível atraso de um ano (daí a data mágica na terça-feira), a situação econômica brasileira já inspirava cuidados, mas a virada no cenário nacional ocorreria apenas no ano seguinte com as grandes manifestações cujo estopim foi o aumento da tarifa do transporte público.

Estação Barão de Mauá (Leopoldina): terminal do TAV no Rio (Tomas Silva/Agência Brasil)

O TAV nesse período já havia deixado de ser uma meta da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, mas o governo federal continuava investindo na ideia a ponto de criar a Empresa de Planejamento e Logística (EPL) no ano anterior para tocar o projeto do trem-bala. A empresa, que ainda existe, e outros órgãos da União estimavam que o Trem de Alta Velocidade fosse custar cerca de R$ 35 bilhões dos quais metade se referiam à infraestrutura de seus 510 km de extensão. Já o mercado acreditava que esse número seria bem mais alto, de pelo menos R$ 50 bilhões.

Duas licitações

Segundo uma apresentação da ANTT também de 2012, o TAV previa uma velocidade padrão de 350 km/h e tempo de viagem entre Rio e São Paulo de 99 minutos. Os passageiros embarcariam na  bela estação Barão de Mauá, também conhecida como Leopoldina, no centro da capital fluminense, enquanto em São Paulo seria construída uma nova estação no Campo de Marte, na Zona Norte da capital paulista. Existiriam ainda paradas em Volta Redonda, São José dos Campos e os aeroportos internacionais do Galeão e Guarulhos, enquanto o trecho até Campinas incluíria uma estação em Viracopos e o terminal na antiga estação da RFFSA, hoje desativada.

A ideia vigente era a de licitar o projeto em duas partes, uma para parte de sistemas, com a escolha da fabricante dos trens e que também faria a operação do serviço, e outra para as obras civis. No cronograma, o novo edital foi publicado no final de 2012, mas no ano seguinte o governo federal passou a adiar o leilão temendo mais um fracasso –  quando já começavam a surgir suspeitas de cartel das fabricantes de trens no Metrô de São Paulo.

O traçado do Trem de Alta Velocidade: 510 km e viagem entre Rio e São Paulo em até 1 hora e 40 minutos (ANTT)

Em 2014, a gestão de Dilma Rousseff ainda mantinha a esperança de levar à frente o projeto, que aparecia no balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2). No entanto, como outras obras ferroviárias menores previstas para a Copa do Mundo da FIFA, o TAV foi ficando pelo caminho. Ao assumir seu segundo mandato, em 2015, a presidente já enfrentava um clima ruim no país, com a economia entrando em recessão e levando consigo qualquer horizonte possível para tirar o trem-bala brasileiro do papel.

Após anos esquecido, o TAV voltou a ser alvo de rumores quando um grupo chinês demonstrou interesse em tocar o projeto. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, um dos mais ativos do atual governo, no entanto, negou que exista essa possibilidade, a despeito de o colunista Ancelmo Gois ter dito em dezembro que o executivo da pasta seria um dos mais empolgados com o trem. Por um bom tempo, no entanto, a descrição do primeiro parágrafo não passará de uma miragem.

 

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About the author

Ricardo Meier

É um entusiasta do assunto mobilidade e sobretudo do impacto positivo que o transporte sobre trilhos pode promover nas grandes cidades brasileiras. Também escreve nos sites Airway (aviação) e AUTOO (automóveis).

22 Comentários

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  • Dilmanta junto com seu padrinho lula da silva foram os maiores mentirosos e corruptos que passaram pela Presidencia da Republica ! o trem bala foi somente mais uma mentira que nunca saiu do lugar, assim como as previsoes de numeros absurdos de passageiros ! Como sempre acredito que projetos mais simples que poderiam, por exemplo, dobrar a velocidade na linha de trem existente hoje entre Rio e Sao Paulo, poderiam sim ser viaveis do ponto de vista economico e,com um numero de passageiros muito menor do que previsto pela Dilmanta, mas ainda capaz de pagar os custos operacionais !

    • As previsões eram factíveis, quem fez questão de boicotar o projeto foi o sr. José Serra, que em 2014 inclusive mencionou que “merecia uma medalha por ter atuado contra o trem-bala”, alegando que aumentou o projeto incluindo Campinas de modo a deixá-lo inviável. Pra variar, o pessoal do PSDB odeia o Brasil, odeia ver o crescimento do país, sucateia o Estado, elimina o progresso e faz questão de acabar com qualquer possibilidade de ver a infraestrutura nacional aumentar.

    • Lá vem o bolsonarista lunático. Um projeto de tamanha magnitude, não sai apenas por vontade de 1 partido político. Se você tem interesse por transporte ferroviário, é seu dever saber que existe um lobby rodoviário absurdo nesse país. Não precisa nem ir muito longe, pra saber que uma linha de metrô em SP, foi arquivada para atender uma concessionária de ônibus. Enquanto o Brasileiro ficar adotando político como animais de estimação o povo continuará se locomovendo de mula.

    • Planejar trens de alta velocidade TAV no Brasil antes dos Trens Intercidades e Metropolitanos de passageiros é colocar a carroça na frente dos bois.

      Talvez o trecho Rio São Paulo Campinas seja um dos mais adequados no mundo, mas desde que os TAV’s operassem assim como ocorre mundialmente integrados à redes de Trens Intercidades de média velocidade (Atualmente inexistentes), os quais agrupariam as demandas nas muitas cidades ao longo do trecho, e desde que se os TAV’s também se conectem e integrem aos modais metrô ferroviários e outros modais de transporte público nas grandes cidades.

      Mas infelizmente o atual projeto-TAV brasileiro não tem quaisquer características de transporte de massa, inclusive não contemplando integração com os modais Metrô Ferroviários. Mas ao mesmo tempo cada uma das estações-TAV contemplará imensas áreas a serem “exploradas” pelo mercado imobiliário, através da construção de cidades-condomínio de luxo voltadas para as classes A e B.

      Portanto o atual projeto-TAV não é um projeto de transporte voltado para o grande público, mas é o grande público que irá pagar pela sua implantação e operação caso ele ocorra.

  • Era plano do atual presidente Jair Bolsonaro quando tomou posse, extinguir a estatal Empresa de Planejamento e Logística – EPL, responsável para implantar o projeto de trem-bala. Segundo a equipe de transição do novo governo na época “não se justificava” a manutenção da estatal vinculada ao ministério dos transportes que consome R$ 70 milhões de recursos públicos por ano. A maior parte deste valor serva para pagar o salário de 140 funcionários.

    Em um primeiro momento, o novo governo deveria migrar a EPL do Ministério dos Transportes para a Secretaria-Geral da Presidência da República, para então ser extinta, passados trinta meses e nada foi feito, uma vez que existiam correligionários políticos em seus quadros.

    A EPL foi criada em 2010 com o nome de Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade S.A. – ETAV. Já em 2012, foi renomeada para Empresa de Planejamento e Logística S.A – EPL com o objetivo adicional de projetar sistemas de transporte.

    • Em nome de se fazer o tal “Estado mínimo”, destrói-se qualquer possibilidade de progresso neste país. Deveríamos voltar às carroças, segundo a cabeça vazia de muitos por aí.

      • Gabriel, se o Estado brasileiro fosse fundado em princípios do “Estado mínimo”, não teríamos que ser obrigados a depender de serviços oferecidos por concessões, qualquer um podia prestar esse serviço, mas não pode pois é “serviço público” e apenas o Estado tem e pode dar a outorga.

        É exatamente a falta de “Estado mínimo” que tem levado o Brasil à “falta de progresso”, temos que depender do Estado abrir uma licitação, escolher o amigo do rei, para então oferecer um serviço monopolizado à população.

        Falar que o Brasil vive em uma “Estado mínimo” é desconhecer a realidade jurídica e até os processos de concessão, verdadeiras fábricas de monopólios e oligopólios no país, fazendo que uma empresa “vencedora” da licitação comece a ter os péssimos comportamentos de estatais.

        • Ué, como assim? Você quer que empresas construam obras sem licitações? Você acha que alguma empresa vai se prestar a gastar bilhões em uma obra pra atender a população brasileira? Vc é desses que acha que acha que empresas são entidades filantropas e que deveríamos viver numa espécie de anarquia moderna onde manda só empresários? Não que seja muito diferente disso o sistema atual, mas o “Estado mínimo” que vc tanto deseja só consolidaria essa situação! Não seria muito melhor que a licitação acontecesse de forma honesta e clara com prazos obedecidos? Mas não se preocupe, o Estado Brasileiro já é mínimo. Mínimo nos transportes, mínimo na educação, na saúde, na infraestrutura, na assistência social, na ciência, na tecnologia, no saneamento, etc…

        • a falta de estado minimo tem levado a falta de progresso? corona virus mandou lembrança a mao invisivel do mercado…. alias, cuidado com a mao invisivel do mercado, que ela nao lava com sabao e nem passa alcool 70º

      • Meu caro, o estado não tem recurso sozinho pra fazer obras como a de um metrô. Já foi dito e comprovado que, ou se faz PPP ou não tem mais obras de transporte ferroviário no país.
        A empresa privada vai lucrar? Sim, esse é o objetivo dela. Mas é melhor um empresário ganhando dinheiro e a população sendo assistida com serviços do que não ter nada.
        Não é estado grande e nem mínimo, e sim estado necessário.

        • Inocente vc, acreditando que empresário ganha dinheiro construindo metrô… O Estado é quem gasta grana construindo e a empresa pega a obra já pronta pra operar e lucrar em cima dela

    • Não houve privatizações significativas neste governo. É um governo conservador nos costumes, PTista na economia.

  • É rir pra não chorar, se bem que nesse caso nunca acreditei que o projeto sairia do papel.

    • Muitos lugares bem mais montanhosos do que a serra das araras tem trem-bala. Acredito que esse trecho seria uma espécie de ladeira subterrânea

  • Podem falar o que quiser, mas uma empresa estaral certamente iria tocar esse projeto de forma que engrandecesse o desenvolvimento do país. O povo brasileiro, ficou tão lunático que acha que a iniciativa privada irá se compadecer do povo tupiniquim, assim de graça. Acordem!

    Será no parecido com o que o que aconteceu na primeira ferrovia de SP. Um brasileiro tocava a obra, mas o governo imperial de Dom Pedro II cedeu aos ingleses, e tudo que era de lucro da ferrovia, ia para a Inglaterra. Foram 150 anos perdidos em que o Brasil praticamente deu dinheiro para iniciativa privada. E no final pra que? Pra ver um sistema funicular desativado poucos anos depois.

    Fiquem achando que chineses vem pra cá pra fazer benfeitorias gratuitas.

    • Perfeito, Johnatan! Infelizmente o brasileiro se cegou pela ideologia da direita, acha que temos que viver numa anarquia onde quem tem mais grana manda. Babam ovo de tudo que vem de fora e odeiam o desenvolvimento nacional. Até da China, o país mais comunista e capitalista ao mesmo tempo, do mundo esse povo fica babando ovo. E, claro, sonham em ser Estados Unidos, o país que mais adora boicotar o desenvolvimento alheio! Triste Brasil, vai seguir sendo destruído pelo próprio povo…

    • nao é bem assim.

      as primeiras ferrovias foram idealizadas pelo barao de mauá, que foi até a inglaterra para trazer quem tinha experiencia com o assunto. o governo imperial apenas deu a concessao para que se construísse. barao de mauá era tambem banqueiro, inclusive foi ele que criou o banco do brasil atual, que depois foi estatizado.

      é muito diferente da situaçao atual, e aí nesse ponto eu concordo com vc. hoje tudo é feito com dinheiro do estado, e nao é no sentido de financiar, mas no sentido de fazer e depois entregar. se fossemos um país sério, com certeza uma estatal tocaria o projeto.

  • Hehe, o fracasso desse projeto reflete bem o porque essa foi a pior década dos últimos 100 anos do Brasil de acordo com a medição do PIB antes do Corona e com o agravante da população se multiplicando.

    Otimismo, positivismo, fé não são nada sem preparo e ação, coisa que está rara nas autoridades do país nos últimos 20 anos, é tudo aparência, o importante é receber em dia seus super salários para gastar lá fora.

  • O presidente da Alstom no Brasil, Philippe Delleur, afirmou que fazer trens intercidades de média velocidade em São Paulo seria o caminho “mais seguro e curto” para o Brasil chegar ao trem-bala.

    Para ele, o problema está nas obras civis. As empreiteiras nacionais, disse, indicam que o valor dado pelo governo está subdimensionado. O projeto total está estimado pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) em R$ 33,1 bilhões, sendo cerca de R$ 28 bilhões (valores de dezembro de 2008) em obras e desapropriações.
    Delleur afirmou que as empresas já estão com dificuldades para conseguir recursos próprios, “equity”, para ingressar como sócias. E, caso a obra fique mais cara que o previsto, serão necessários mais recursos próprios ou financiamento. O BNDES pode financiar até R$ 20 bilhões.
    “As conversas com investidores indicam que é muito difícil achar um valor tão grande de “equity” privado. Os investidores financeiros não vão colocar dinheiro se não houver um grande esclarecimento sobre o projeto. E, se o orçamento não é R$ 33 [bilhões], é R$ 50 [bilhões], aumenta o tamanho do problema a ser resolvido.”

    O tempo a mais até a nova data do leilão também será usado para fazer novos estudos sobre as conexões com outros sistemas de transportes, principalmente em São Paulo. Como é fundamental que a linha de alta velocidade seja integrada, Delleur defende os trens intercidades.

    Entre os modelos de trem regional propostos estão os semelhantes aos que nossos vizinhos Sul Americanos que tem como base a AMTRAK-EUA como do;

    ViaTrolebus – 09/mai/2019 Chile recebe propostas para construir trem de média velocidade entre Santiago e Valparaiso.

    ViaTrolebus – 25/set/2019 Peru faz PPP para construir ferrovia de tráfego misto, ou seja, trens cargueiros e de passageiros ~324km e trem a 200km/h.

    *Concordo perfeitamente com a opinião do sr. Delleur, quando especifica-se trens com velocidade de até 200 km/h que podem ser usados como trens regionais flex com alimentação elétrica bivolt em 3 kVcc e futuramente como trens TAV em linhas exclusivas com alimentação em 25 kVca podendo ser os do tipo pendulares Acela ou Superpendolino que possuem uma capacidade de trafegar em curvas de raios menores pois possuem um sistema de compensação de estabilidade de até 8 graus, adaptando-se melhor as condições brasileiras usando as mesmas composições para ambas .especificações e padronizados em bitola de 1,6 m, exatamente como é em SP, MG e RJ entre outras cidades principais.

    Estes modelos de trens são de tecnologia consagrada, e podem ser construídos no Brasil, inclusive pela Embraer.

  • Por favor precisam lança esse 🚆 trem expresso nós trabalhadores precisamos de trens mais rápido e confortável.

Airway