Análise: concessionárias privadas mostram-se mais eficientes que operadoras estatais, segundo dados

Operadoras privadas também recebem mais receitas do governo em comparação às empresas públicas. A eficiência e o lucro, entretanto, não se traduzem necessariamente em melhorias ou aumento na qualidade da operação

Trem da ViaQuatro (Jean Carlos)
Trem da ViaQuatro (Jean Carlos)

O debate entre a gestão pública e privada no setor de mobilidade sobre trilhos geralmente suscita discussões acaloradas, mas com poucas informações realmente objetivas sobre ambos os modelos de operação.

Buscando contribuir com mais informações em um maior contexto de comparações, o site se debruçou em dados públicos e realizou cálculos para demonstrar a eficiência das empresas operadoras sob o aspecto financeiro.

Vale observar que a intenção aqui é esclarecer aspectos do serviço a fim de trazer mais luz ao assunto, hoje alvo de polarização política e que muitas vezes sofre com visões distorcidas.

Cabe também citar que o aspecto econômico não é o único fator que influi na qualidade geral do serviço de mobilidade sobre trilhos. Portanto, é racional pensar que empresas mais eficientes financeiramente podem ter desempenhos diferentes do que é expresso nos balanços contábeis.

Metrô de São Paulo (Jean Carlos)
Metrô de São Paulo (Jean Carlos)

Metodologia

O objetivo do artigo foi realizar o cálculo de custo dos serviços das operadoras em relação às diferentes variáveis. Foram escolhidas três variáveis principais, sendo elas o número de passageiros transportados por ano, quantidade de estações e extensão da rede.

O custo dos serviços prestados é o valor contábil que foi extraído dos relatórios de cada uma das operadoras. Também foram extraídos os dados de receita tarifária.

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No caso das operadoras públicas, este valor é composto da receita da venda de bilhetes, gratuidades, recomposições e subvenções econômicas. Para as operadoras privadas foram consideradas as receitas metroviárias e receita de mitigação que são definidas por contrato.

Foram excluídas as receitas não tarifárias, pois elas não são inerentes diretamente à operação do sistema sobre trilhos, servindo apenas como receita acessória.

De igual forma foram também excluídos as despesas administrativas e financeiras, incluindo o que se refere à mão de obra não relacionada à operação em si.

Trem da Série 2500 produzido na China pela Sifang (CPTM)

Dados

O site recolheu informações sobre as operadoras sobre trilhos na região metropolitana de São Paulo. Atualmente existem cinco operadoras metroferroviárias em São Paulo, sendo duas públicas e três privadas.

Em relação à malha pública, ela é operada pelo Metrô e CPTM. Somadas, as empresas transportaram 1,3 bilhão de passageiros em 2023. Sua estrutura é composta por 120 estações e 267 km de trilhos.

A rede privada de trilhos é composta pela ViaQuatro, ViaMobilidade (5 e 17) e ViaMobilidade (8 e 9). As empresas transportaram juntas 574 milhões de passageiros no ano passado em uma estrutura de 68 estações distribuídas em 112 km de trilhos.

Veja abaixo a relação detalhada por empresa:

Informações básicas das empresas sobre trilhos (Jean Carlos)
Informações básicas das empresas sobre trilhos em 2023 (Jean Carlos)

Custo e receita

As empresas públicas registraram um custo operacional de R$ 4,8 bilhões no ano de 2023. Suas receitas com tarifas, somada a subvenção econômica, foi de R$ 4,2 bilhões.

As operadoras privadas tiveram um custo operacional de R$ 1,3 bilhão durante o ano de 2023. As receitas obtidas pelas empresas foram de R$ 2,1 bilhões considerando as receitas de mitigação previstas em contrato.

Veja abaixo a relação completa por empresa:

Custo e receitas das empresas em 2023 (Jean Carlos)
Custo e receitas das empresas em 2023 (Jean Carlos)

Relação de custos

Foi realizado o cálculo para verificar o custo operacional de cada empresa em relação a cada uma das variáveis. Para isso foi feita a divisão entre o custo dos serviços prestados pela quantidade de passageiros, número de estações (dia), e  extensão da rede (dia).

Em relação a quantidade de passageiros transportados, a empresa mais econômica é a ViaQuatro que gasta R$ 1,77 para cada passageiro que transporta. A empresa com maior custo é a CPTM que precisa de R$ 4,91 para transportar o mesmo passageiro.

Em relação ao custo de operação por quilômetro/dia a empresa mais econômica é a ViaMobilidade Linhas 8 e 9 que tem um custo de R$ 20,4 mil por quilômetro de ferrovia. A empresa com maior custo é o Metrô de São Paulo que gasta R$ 100,4 mil para operar um quilômetro de trilhos ao dia.

No que se refere ao custo por estação, a empresa mais econômica é a ViaMobilidade Linhas 8 e 9 com custo de R$ 40,2 mil por estação ao dia. A com maior valor é o Metrô de São Paulo com custo médio de R$ 113,8 mil para manter uma estação por dia.

Custo das operadoras por passageiro, estação e quilometro (Jean Carlos)
Custo das operadoras por passageiro, estação e quilometro (Jean Carlos)

Receitas

Em relação às receitas das empresas, foi realizado o cálculo de recebimento por passageiro transportado. As empresas que mais recebem são a CPTM e ViaQuatro com R$ 4,72 e R$ 4,26 por passageiro transportado.

Cabe citar que, no caso específico da CPTM, a empresa tem maior valor devido aos aportes direto do tesouro do estado. Retirando este aporte a receita cai para R$ 2,96 por passageiro.

Por sua vez, a empresa que menos tem repasses é o Metrô de São Paulo. A estatal recebe apenas R$ 2,46 por passageiro transportado.

Receita por passageiro transportado (Jean Carlos)
Receita por passageiro transportado (Jean Carlos)

Custo com funcionários da operação

As despesas com funcionários por ano também foram calculadas com base em dados de pessoal ligado à operação apenas. A empresa que mais paga funcionários é a CPTM com R$ 1,90 por passageiro transportado. A empresa que menos paga é a ViaQuatro que paga R$ 0,57 por cada passageiro transportado.

Em relação ao custo de pessoal por quilômetro de linha, a empresa que mais remunera é o Metrô, com investimento de R$ 55 mil por quilômetro de rede. A que menos paga é a ViaMobilidade Linhas 8 e 9 com remuneração de R$ 8,1 mil por quilômetro.

Em relação às estações, a empresa que melhor remunera é o Metrô com investimento de R$ 62,3 mil por cada estação ao ano. A empresa que menos paga é a ViaMobilidade Linhas 8 e 9 com remuneração de R$ 16,1 mil por estação.

Remuneração de empregados por passageiro, estação e quilometro (Jean Carlos)
Remuneração de empregados por passageiro, estação e quilometro (Jean Carlos)

Cobertura bruta

A cobertura de receita é medida levando em consideração a razão entre a receita e os custos operacionais. Neste sentido, a empresa com melhor desempenho é a ViaQuatro com cobertura de 241,02% dos custos considerando apenas a receita tarifária e os custos de operação.

A empresa que possui a menor cobertura é o Metrô, que é capaz de cobrir apenas 80,02% dos custos com a receita tarifária.

Cobertura de custos (Jean Carlos)
Cobertura de custos (Jean Carlos)

Conclusão

Em termos gerais, o custo que as empresas privadas têm ao operar sistemas sobre trilhos é visivelmente menor do que as empresas públicas. Metrô e CPTM gastam em média R$ 3,72 para transportar um passageiro, enquanto as empresas privadas gastam R$ 2,29.

Outro dado interessante é o custo na operação dos diferentes sistemas sobre trilhos. Em geral, operar Metrô é mais caro do que operar sistemas de trens metropolitanos.

Enquanto a CPTM e a ViaMobilidade Linhas 8 e 9 têm custos entre R$ 20 mil a R$ 31 mil por quilômetro/dia, a rede de Metrô tem custos que variam de R$ 53 mil à R$ 100 mil por quilômetro/dia.

Composição da Frota C na estação Comandante Sampaio (Jean Carlos)

No que se refere às receitas, fica claro que sim, as empresas privadas recebem mais para operar os sistemas sobre trilhos. Enquanto o Metrô recebe apenas R$ 2,46 por passageiro transportado, a ViaQuatro recebe R$ 4,26.

Se considerar a remuneração por quilômetro de rede, a diferença fica mais clara. Enquanto o Metrô recebe R$ 80 mil para operar um quilômetro de trilhos por dia, a ViaQuatro recebe R$ 173 mil para operar o mesmo quilômetro.

Em suma: As empresas privadas têm custos menores e arrecadações maiores. O resultado é, inevitavelmente, o lucro operacional ao sistema sobre trilhos.

Entretanto, cabe citar que o lucro das empresas não é totalmente revertido em melhorias ao sistema. Da mesma forma, o lucro não significa sinônimo de plena eficiência e qualidade operacional.

Composição da Série 8500 descarrilada no Pátio Ceasa (Jean Carlos)
Composição da Série 8500 descarrilada no Pátio Ceasa (Jean Carlos)

Utilizando os casos da ViaQuatro e Metrô, devemos considerar que enquanto em uma empresa os trens operam de forma automática, com funcionários executando múltiplas funções recebendo um salário menor, no Metrô a estrutura é mais antiga, com maior demanda de funcionários e salários comparativamente maiores.

Ambas as linhas operam com qualidade de serviços semelhantes, mas com estruturas diferentes. Isso deve ser levado em conta em análises futuras que abarquem outros temas.

Esta matéria se limitou apenas ao aspecto econômico das operações, ou seja, apenas uma das faces da complexa operação metroferroviária. A imagem completa requer análises mais aprofundadas de outros fatores e, consequentemente, de mais informações e dados para apreciação.