Com demanda recorde, Linha 5-Lilás segue com frota de trens apertada

Oito composições da Frota F estão fora de serviço e uma das 26 unidades da Frota P estaria avariada após colisão ocorrida em 2023

Trem da Frota F que não opera há tempos na Linha 5-Lilás
Trem da Frota F que não opera há tempos na Linha 5-Lilás (Jean Carlos)

A Linha 5-Lilás vive uma situação que se arrasta há vários anos e se torna mais relevante à medida que o ramal ganha cada vez mais passageiros. Apesar da demanda recorde, a Motiva (ViaMobilidade) depende da Frota P de trens para atender a operação, enquanto as oito composições da Frota F permanecem sem condições de prestar serviço.

Mesmo entre as 26 unidades da Frota P, no entanto, uma estaria indisponível. Segundo apuração do MetrôCPTM, o trem 524 continua fora de serviço após se envolver em uma colisão no Pátio Guido Caloi em maio de 2023.

A concessionária confirmou ao MetrôCPTM que nenhum dos oito trens da Frota F está apto para a operação comercial. Segundo a empresa, “pendências técnicas de integração e desempenho, além de obsolescência tecnológica” impediram a conclusão do processo para utilização das composições.

A situação contrasta com documentos do próprio Metrô que mostram que a adaptação dos trens ao sistema de sinalização CBTC chegou a ter suas instalações consideradas concluídas.

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Trilhos que Movem SP/Reprodução

Um Certificado de Conclusão das Instalações (CCI), obtido pelo MetrôCPTM por meio do Fala.SP, mostra que o Metrô recebeu formalmente da Bombardier o sistema de sinalização de bordo instalado nos trens F01 a F08.

O documento foi emitido em janeiro de 2022, mas estabelece 30 de abril de 2020 como a data de conclusão das instalações. O certificado registra a existência de uma lista de “pendências não impeditivas” e transfere ao Metrô a responsabilidade pelo cuidado, guarda e risco de perda das instalações.

Entre as pendências estavam problemas na indicação de habilitação das portas, diferenças no funcionamento do sistema de inicialização dos trens, necessidade de adequação de software e atualização de placas do sistema ATO do trem F03. Em novembro de 2021, algumas dessas questões ainda estavam em discussão com a Bombardier.

O certificado, no entanto, não significa que os oito trens tenham sido considerados plenamente aptos à operação comercial. O próprio documento determinava que a contratada concluísse os itens pendentes e mantinha suas obrigações durante o período de responsabilidade por defeitos.

Trem fabricado pela Alstom para a Linha 5 quando foi entregue em 2002 (GESP)

Frota F pouco rodou após instalação do CBTC

Os oito trens foram fabricados pela Alstom e começaram a operar em 2002, quando a Linha 5 foi inaugurada com seis estações pelo Metrô. Com a implantação do CBTC, a Frota F precisou receber novos equipamentos de sinalização para funcionar juntamente com os 26 trens da Frota P, fabricados pela CAF.

A utilização das composições mais antigas, porém, tornou-se cada vez mais rara. Algumas unidades chegaram a circular após a concessão da Linha 5, mas acumularam quilometragem muito inferior à dos trens P.

Em 2022, levantamento do MetrôCPTM mostrou que quatro composições estavam havia quase seis anos sem prestar serviço. Os trens F05, F06 e F08 haviam percorrido juntos apenas cerca de 36 mil km entre janeiro e setembro daquele ano, enquanto até mesmo a composição menos utilizada da Frota P havia superado 82 mil km no mesmo período.

Documento obtido pelo site mostrava em 2022 como a Frota F havia sido pouco usada antes de ser descomissionada

Ainda em 2023, a então ViaMobilidade afirmava que trabalhava na modernização e revitalização da Frota F.

Dois anos depois, informações obtidas pelo MetrôCPTM junto à Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) mostraram que nenhum dos oito trens estava apto ao serviço comercial e somente quatro tinham condições de se movimentar.

Na ocasião, foram relatados problemas de confiabilidade, dificuldade para obtenção de peças e componentes e questões relacionadas ao software dos trens. Entre as alternativas estudadas estavam uma nova modernização ou até a substituição da frota.

Agora, a Motiva confirma que os oito trens permanecem impossibilitados de operar e afirmou que atualizará seu site, que ainda fazia referência a trabalhos de “atualização e testes” das composições.

A Artesp também confirmou ao MetrôCPTM que os oito trens continuam sob responsabilidade da concessionária e atribuiu sua indisponibilidade à existência de “peças e componentes obsoletos”. Segundo a agência reguladora, estudos técnicos estão em andamento para definir o futuro da frota.

Procurado, o Metrô não comentou a situação dos trens e orientou a reportagem a consultar a SPI.

Composições da Frota F ainda com as cores do Metrô de SP (Jean Carlos)

Colisão mantém outro trem fora de serviço

A indisponibilidade não se limita à Frota F. Em outubro de 2025, o MetrôCPTM revelou que os trens 524 e 530, ambos da Frota P, haviam se envolvido em uma colisão durante uma manobra no Pátio Guido Caloi, em maio de 2023.

A concessionária confirmou na ocasião que houve o acidente, mas não detalhou os danos sofridos pelas composições nem informou a situação operacional dos dois trens.

Segundo informações obtidas agora pelo MetrôCPTM, o 530 voltou a circular, mas o 524 permanece fora de serviço. A Motiva ainda busca junto à CAF estabelecer um plano para recuperar a composição e que o processo deverá levar tempo, de acordo com relatos.

Enquanto isso, componentes do trem 524 estariam sendo utilizados nos demais trens da Frota P.

Caso o afastamento do 524 se mantenha, a concessionária dispõe efetivamente de 25 dos 26 trens P para atender à operação. Somados aos oito trens F reconhecidamente indisponíveis, seriam nove composições fora do serviço comercial entre as 34 existentes na Linha 5.

Isso significa que apenas 25 trens, ou 73,5% da frota total existente, estariam efetivamente disponíveis para a operação.

Movimento da Linha 5 tem batido recordes de demanda (Jean Carlos)

Demanda voltou a estabelecer recordes

A situação da frota ocorre justamente quando a Linha 5 atravessa uma nova fase de crescimento.

O ramal ainda estava amadurecendo quando a pandemia de Covid-19 provocou a forte queda na utilização do transporte público. Campo Belo, última estação da extensão até Chácara Klabin, havia sido inaugurada somente em abril de 2019, e a Linha 5 passou a estabelecer sucessivos recordes de movimento.

Em novembro daquele ano, a média chegou a 622 mil passageiros por dia útil. Naquele momento, a concessionária já precisava escalar até 25 dos 26 trens da Frota P nos horários de maior movimento.

A pandemia interrompeu essa trajetória, mas a demanda voltou a crescer nos anos seguintes. Em dezembro de 2025, a Linha 5 transportou 672.039 passageiros em um único dia durante uma greve de ônibus, estabelecendo um novo recorde diário.

Os números de 2026 mostram que o movimento elevado deixou de ser uma situação excepcional. A média dos dias úteis atingiu 617,9 mil passageiros em março, 615,4 mil em abril e 611,3 mil em maio.

Em agosto, foram 595,4 mil passageiros por dia útil. Santo Amaro recebeu em média 100,8 mil usuários, Capão Redondo, 96,1 mil, e Chácara Klabin, 95,5 mil.

A abertura da Linha 17-Ouro adicionou outra conexão à Linha 5. Em 30 de setembro, primeiro dia da operação ampliada do monotrilho, Campo Belo recebeu pouco mais de 20 mil passageiros, cerca de 29% acima da média registrada em agosto.

Cena rara: estação Capão Redondo da Linha 5-Lilás com pouco movimento (Jean Carlos)

Intervalos poderiam ser menores com mais trens

A limitação da frota também aparece na oferta de serviço. A Linha 5 costuma trabalhar com intervalos superiores aos encontrados nas linhas de metrô de maior movimento.

Dados divulgados em 2026 indicavam intervalos em torno de 3 minutos e 20 segundos na Linha 5 nos períodos de maior demanda, acima dos cerca de 2 minutos e 12 segundos praticados nas linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha.

Essa não é uma discussão nova. Em fevereiro de 2020, o MetrôCPTM já mostrava que a concessionária utilizava praticamente todos os trens P nos horários de pico e que a disponibilidade da Frota F era necessária para aumentar a oferta. À época, o intervalo praticado chegava a 172 segundos, diante de uma previsão de 90 segundos.

Atualmente, a concessionária estaria usando entre 22 e 24 trens nos horários de pico, dependendo da rotina operacional e da programação de manutenção realizada pela CAF.

A informação ganha outro peso diante da situação do trem 524. Se apenas 25 composições P estiverem efetivamente disponíveis, colocar 24 delas em circulação significa operar com 96% da frota operacional, restando apenas um trem fora do serviço para reserva ou manutenção.

Mesmo no cenário de 22 trens em circulação, são 88% das 25 composições que estariam disponíveis. A CAF mantém a Frota P por meio de um contrato de longo prazo firmado com a Motiva mas teria que executar os principais serviços de manutenção aos fins de semana e feriados, quando a demanda é menor.

Embora não seja possível quantificar quantos passageiros adicionais utilizariam a Linha 5 caso houvesse maior oferta, a combinação entre intervalos mais elevados, utilização intensa da frota disponível e crescimento da demanda indica pouco espaço para ampliar o serviço sem incorporar novas composições.

CRRC vai fornecer novos trens da Linha 5-Lilás (Montagem sobre imagem da CRRC)

22 novos trens e expansão até Jardim Ângela

Uma solução pode estar em uma encomenda ainda não reconhecida oficialmente pelas partes envolvidas.

Em março, o MetrôCPTM revelou com exclusividade que a chinesa CRRC foi escolhida pela Motiva para fornecer 22 novos trens para a Linha 5-Lilás.

As condições do negócio, porém, continuam pouco claras. Parte da nova frota deverá atender à expansão de Capão Redondo até Jardim Ângela, que acrescentará duas estações e levará a Linha 5 a uma região densamente povoada da Zona Sul.

Também é possível que a encomenda contemple a substituição dos oito trens da Frota F, mas essa destinação não foi confirmada pela concessionária nem pelo governo estadual.

Há um precedente dentro da própria Motiva. Na Linha 4-Amarela, a concessionária assinou um aditivo contratual relacionado à expansão do ramal e adquiriu seis novos trens da CRRC, que serão incorporados às 29 composições Rotem atualmente disponíveis.

Na Linha 5, as negociações para um aditivo que viabilize a extensão até Jardim Ângela têm se prolongado. A concessionária, entretanto, já contratou a Odebrecht para executar as obras da expansão.

Com duas novas estações previstas e uma demanda que já estabelece novos recordes antes mesmo da extensão, a definição sobre os 22 trens da CRRC também poderá esclarecer se a Linha 5 finalmente ganhará uma frota maior ou se parte das novas composições servirá para substituir definitivamente os oito trens F que deixaram de prestar serviço.