A cena já pode ser imaginada: o governador João Doria, ao lado dos prefeitos do ABC Paulista, fará uma ode ao BRT, o corredor de ônibus que empresta soluções metroviárias para parecer um modal tão capaz quanto uma linha ferroviária. “Mais barato”, “mais rápido”, “moderno”, “vantajoso”, “diferente de um corredor de ônibus”, “inteligente”, devem ser os termos que povoarão o discurso do governador. Na verdade, eufemismos de um desastre urbanístico anunciado.

Se realmente anunciar o fim da Linha 18-Bronze do Metrô – como tudo leva a crer que fará nesta quarta-feira às 11h30 -, João Doria terá cometido o maior retrocesso em transporte público da história de São Paulo. Até hoje, nunca uma linha de metrô foi cancelada nesse estágio, em que milhões de reais foram desperdiçados após a população do ABC esperar pacientemente por cinco anos pela sua implantação – e que se fosse realizada como planejado já estaria entregue desde 2018.

Linhas de metrô podem atrasar, ter fases suspensas ou trajetos alterados, mas nunca são substituídas por um modal adaptado para uma função que não é a sua. Se de fato trocar uma linha ferroviária por um corredor de ônibus, o governador do PSDB estará condenando uma região com mais de 3 milhões de habitantes a um atraso em mobilidade de décadas.

“Se realmente anunciar o fim da Linha 18-Bronze do Metrô, João Doria terá cometido o maior retrocesso em transporte público da história de São Paulo”

Sim, porque o horizonte para um novo projeto levará anos para sair do papel por mais que Doria sinalize que, por exemplo, pretenda lançar o projeto da Linha 20-Rosa, de metrô pesado, em sua gestão. Além do monotrilho da Linha 18-Bronze e de um VLT estudado pela CPTM partindo de Santo André, desconhece-se atualmente qualquer outro projeto por trilhos para o ABC Paulista.

Fato é que esses projetos estão em estágio tão inicial que serão precisos vários anos para que estejam prontos para um suposta licitação. Pelo histórico de construção de linhas subterrâneas, certamente o metrô só chegaria à região na década de 2030, em uma hipótese extremamente otimista.

Em outras palavras, moradores do ABC continuarão distantes da rede metroferroviária de São Paulo, que nos últimos anos tem ganhado importância na mobilidade da região metropolitana. O consolo será ver a Linha 10-Turquesa receber algum tipo de modernização, com novos trens, quem sabe reformas em suas estações decadentes e um sistema de sinalização capaz de reduzir intervalos.

Para chegar à ela ou qualquer outra linha, no entanto, será preciso utilizar os corredores de ônibus e suas implicações urbanísticas. Uma visão que os moradores do ABC terão de suportar por muito tempo.

Trecho do corredor ABD em Diadema: ônibus no papel que deveria ser do trem, como nas cidades mais ricas do mundo (Reprodução/Google)

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