Linha 4-Amarela para de crescer, mas ganha mais passageiros exclusivos

Demanda integrada está praticamente no mesmo nível de dois anos atrás, enquanto viagens feitas apenas no ramal cresceram quase 15%, segundo dados da Motiva

A Linha 4-Amarela teve falha elétrica nesta quarta-feira (GESP)

Primeiro ramal metroviário a ser operado pela iniciativa privada no Brasil, a Linha 4-Amarela praticamente não apresentou crescimento no terceiro trimestre de 2026, mas os números divulgados pela Motiva revelam uma mudança importante no perfil de seus passageiros. Enquanto a demanda proveniente de integrações parou de avançar, aumentou de forma consistente o número de pessoas que utilizam exclusivamente o ramal.

Entre julho e setembro, a ViaQuatro transportou 51,996 milhões de passageiros, 0,4% abaixo dos 52,201 milhões registrados no mesmo período de 2025. No acumulado dos primeiros nove meses do ano, houve crescimento de apenas 0,6%, de 151,885 milhões para 152,755 milhões.

A estabilidade chama a atenção em uma linha que apresentou grande expansão da demanda durante boa parte de sua existência e agora se prepara para uma nova ampliação, de Vila Sônia até Taboão da Serra.

Os dados mais interessantes, no entanto, aparecem quando os passageiros são separados pela forma como chegam à Linha 4.

Receba notícias quentes sobre mobilidade sobre trilhos em seu WhatsApp! Clique no link e siga o Canal do MetrôCPTM.

No terceiro trimestre, 43,311 milhões eram passageiros integrados, vindos de outras linhas ou sistemas. O número significa queda de 1,8% em relação aos 44,103 milhões do mesmo período de 2025.

No sentido contrário estão os passageiros classificados pela ViaQuatro como exclusivos, aqueles cuja viagem contabilizada ocorre apenas na Linha 4. Foram 8,685 milhões no terceiro trimestre, crescimento de 7,3% sobre os 8,098 milhões registrados um ano antes.

Estação Vila Sônia, da Linha 4-Amarela (Willian Moreira)

Dois anos sem crescimento entre integrados

A comparação com 2024 mostra que essa mudança não se limita ao último trimestre. No terceiro trimestre daquele ano, a Linha 4 havia transportado 50,88 milhões de passageiros. Desse total, 43,308 milhões eram integrados e 7,57 milhões exclusivos.

Dois anos depois, a quantidade de passageiros integrados é praticamente idêntica: 43,311 milhões. A diferença entre os dois períodos é de menos de 3 mil viagens em um universo superior a 43 milhões.

Já os passageiros exclusivos passaram de 7,57 milhões para 8,69 milhões no mesmo intervalo, avanço de aproximadamente 1,12 milhão ou quase 15%.

A tendência também aparece quando são considerados períodos mais longos. Nos primeiros nove meses de 2025, os passageiros exclusivos já haviam crescido 8,1% sobre o ano anterior, enquanto os integrados avançaram apenas 1,6%. Entre janeiro e setembro deste ano, os exclusivos aumentaram outros 5,4%, ao passo que os integrados recuaram 0,3%.

Os números sugerem que a Linha 4 se aproxima de um limite de crescimento dentro da configuração atual. Embora o ramal continue atraindo mais passageiros que realizam viagens exclusivamente em suas estações, esse avanço já não é suficiente para produzir uma expansão significativa da demanda total.

Os dados divulgados pela Motiva não permitem determinar a razão dessa mudança de perfil.

Expansão abrirá uma nova frente de demanda

A estagnação ocorre justamente quando a Linha 4 inicia sua maior expansão desde a chegada a Vila Sônia. A ViaQuatro está implantando 3,3 km de extensão até Taboão da Serra, com as novas estações Chácara do Jockey e Taboão da Serra. O governo paulista estima que o prolongamento acrescente mais de 50 mil passageiros por dia ao transporte sobre trilhos.

A mudança também deverá alterar a alimentação da Linha 4 no extremo oeste. Atualmente, Vila Sônia recebe passageiros de ônibus e de outras regiões que seguem viagem pelo metrô. A chegada do ramal a Taboão da Serra criará outra grande interface com o transporte coletivo e levará os trilhos pela primeira vez diretamente ao município.

Composições da ViaQuatro, empregadas na Linha 4-Amarela.

A expansão foi incorporada ao contrato da ViaQuatro pelo 10º Termo Aditivo, assinado em setembro de 2025. O acordo também prorrogou a concessão por 20 anos, até 2060, e redesenhou a estrutura financeira do contrato.

O investimento divulgado pelo governo para a extensão é de aproximadamente R$ 4 bilhões. Desse total, cerca de R$ 3 bilhões serão bancados com recursos estaduais e financiamento do Banco Mundial, enquanto aproximadamente R$ 1 bilhão ficará sob responsabilidade da concessionária.

Além das duas estações e dos túneis, estão previstos seis novos trens, uma subestação de energia e sistemas necessários para a operação do prolongamento.

Receita cresce mesmo com demanda parada

Os resultados do terceiro trimestre também mostram que a estabilidade no número de passageiros não significou estagnação da receita tarifária da ViaQuatro.

A receita proveniente das tarifas passou de aproximadamente R$ 200 milhões no terceiro trimestre de 2025 para R$ 209 milhões neste ano, alta de 4,5%, enquanto a tarifa média de remuneração avançou de R$ 3,80 para R$ 4,00.

Já a receita metroviária apresentou uma variação muito maior, de R$ 153 milhões para R$ 209 milhões, crescimento de 36,6%. Essa comparação, porém, é afetada por um efeito extraordinário registrado no ano passado.

Poço da estação Taboão da Serra já tem profundidade acima de 30 metros (Reprodução)

No terceiro trimestre de 2025, a ViaQuatro contabilizou R$ 47 milhões negativos em receita de mitigação, relacionados ao reequilíbrio econômico-financeiro estabelecido pelo 10º Termo Aditivo. Sem esse efeito, o desempenho operacional da concessão é melhor representado pelo crescimento de 4,5% da receita tarifária.

O acordo firmado para viabilizar a expansão também criou um adicional de R$ 0,4230 na tarifa de remuneração da ViaQuatro e reconheceu desequilíbrios financeiros associados à implantação da segunda fase da Linha 4.

Em junho deste ano, outro aditivo acrescentou investimentos nos sistemas de sinalização e na certificação de segurança necessários para levar a operação até Taboão da Serra, com reequilíbrio a favor da concessionária por meio de novos aportes públicos.

As obras da futura Estação Taboão da Serra já estão na etapa de escavação das estruturas subterrâneas. O projeto prevê ainda a Estação Chácara do Jockey antes da conexão com Vila Sônia.