Governo Tarcísio admite atraso na Linha 6 e diz que contrato permite mudar cronograma

Artesp reconheceu prorrogação de Brasilândia e Itaberaba, enquanto previsão de levar os trens até São Joaquim em 2027 enfrenta uma situação ainda mais delicada em 14 Bis

Obras da estação Itaberaba em setembro de 2026
Obras da estação Itaberaba em setembro de 2026 (Linha Uni)

O governo de São Paulo reconheceu que houve uma prorrogação no cronograma da Linha 6-Laranja, após as estações Brasilândia e Itaberaba-Hospital Vila Penteado deixarem de ser inauguradas em outubro, como chegou a estar previsto. A promessa agora é abrir as duas paradas até o fim de 2026.

Em resposta ao Estadão, a Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp) afirmou que Brasilândia está com 96,3% de execução e Itaberaba com 87,7% e confirmou a previsão de operação até o final do ano.

A agência acrescentou que alterações de cronograma são permitidas mediante análise da Artesp e do poder concedente, desde que sejam observados os procedimentos e requisitos regulatórios.

A mudança de prazo já havia sido revelada pelo MetrôCPTM em 23 de outubro. Na ocasião, tanto a Linha Uni quanto a Artesp descartaram a abertura das duas estações naquele mês e passaram a indicar apenas o final do ano.

O cronograma contratual previa que o trecho entre Brasilândia e Perdizes começasse a operar em outubro de 2026. Parte dele acabou antecipada para julho, quando seis estações foram abertas em operação assistida, mas Brasilândia e Itaberaba permaneceram em obras.

Portas de plataforma da estação Brasilândia (Linha Uni)

O adiamento das duas paradas, no entanto, é relativamente pequeno diante da incerteza existente na segunda fase da Linha 6. O governo ainda prevê levar os trens de Perdizes até São Joaquim em 2027, mas o cronograma elaborado pela própria Linha Uni para tornar isso possível já está profundamente defasado.

14 Bis deveria ter sido liberada em fevereiro de 2025

O principal problema está na estação 14 Bis-Saracura, que teve as obras afetadas pelas descobertas arqueológicas no terreno.

No início de 2025, a Linha Uni apresentou um cronograma específico a entidades da região do Bixiga para tentar preservar a abertura do trecho até São Joaquim em outubro de 2027. A solução já previa que 14 Bis não ficaria pronta junto com as demais estações.

Para que isso fosse possível, porém, a concessionária precisava receber o terreno integralmente liberado para as obras até 28 de fevereiro de 2025.

A partir daí, seriam necessários cerca de 18 meses para executar a estrutura necessária à passagem dos trens. A estação continuaria em construção mesmo com as composições circulando pelo local e só seria concluída em janeiro de 2029.

Pelo planejamento apresentado naquela ocasião, a escavação deveria alcançar a laje de fundo em fevereiro de 2026. Nesse estágio seria possível retirar as aduelas provisórias instaladas no túnel pelo Tatuzão Sul na área das futuras plataformas e começar a preparar a infraestrutura ferroviária.

Os primeiros testes estavam previstos para fevereiro de 2027. Em abril daquele ano, os trens já deveriam circular experimentalmente pelo trecho, com testes e comissionamento prosseguindo até outubro, quando a operação chegaria a São Joaquim.

Nada disso ocorreu dentro das datas previstas.

Trem da Linha 6-Laranja (Willian Moreira)

Mais de um ano perdido em cronograma que já era emergencial

O limite de fevereiro de 2025 passou sem que a Linha Uni tivesse o terreno disponível para executar o plano.

Em setembro daquele ano, a concessionária informou que cerca de 75% da área ainda não havia sido investigada arqueologicamente e não conseguiu estabelecer uma previsão para a conclusão da estação.

Naquela altura, segundo o planejamento apresentado meses antes, a escavação da vala já deveria estar no terceiro dos cinco níveis previstos.

A situação pouco mudou nos meses seguintes. Em fevereiro de 2026, 14 Bis continuava com apenas 15,33% de execução. André de Angelo, CEO da Acciona no Brasil, reconheceu na ocasião que entregar a estação em 2027 seria um “desafio muito grande”.

Em junho, o presidente da Artesp, André Isper, admitiu ao MetrôCPTM que 14 Bis poderia não ser inaugurada junto com o restante da linha em 2027. O governo, entretanto, continuou sustentando que os trens chegariam até São Joaquim.

Essa possibilidade não depende necessariamente da conclusão de 14 Bis. O plano preparado pela Linha Uni já previa justamente deixar a estação fechada enquanto os trens passassem pelo local.

O problema é outro: para alcançar Bela Vista e São Joaquim, as composições precisam atravessar 14 Bis e, para isso, a estrutura da estação e a infraestrutura ferroviária naquele trecho precisam atingir um estágio que permita a circulação.

Ao fundo a Área 6, onde foram encontrados novos vestígios arqueológicos na futura estação 14 Bis (Linha Uni)

Novos achados interromperam novamente os trabalhos

A situação ganhou outro obstáculo em agosto deste ano, quando novos achados arqueológicos levaram à paralisação integral das atividades no canteiro de 14 Bis.

Em setembro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) decidiu que os trabalhos poderiam prosseguir nas áreas não diretamente afetadas pelos vestígios. A chamada Área 6, entretanto, continuou isolada para escavação e resgate arqueológico manual.

Após a decisão, a Linha Uni informou que precisaria avaliar as determinações do órgão para medir os impactos e reprogramar as atividades.

A estação permanecia com avanço físico próximo de 15%, muito distante das demais paradas da Linha 6.

O cenário atual, portanto, já ultrapassou em mais de um ano a premissa sobre a qual a própria concessionária construiu seu plano para preservar a chegada dos trens a São Joaquim em outubro de 2027.

Naquele cronograma, a Linha Uni alertava que novos atrasos poderiam comprometer a conclusão da Linha 6 e impedir o início da operação na data programada.

Até agora, governo e concessionária continuam indicando 2027 para a chegada da Linha 6 a São Joaquim, mas não apresentaram publicamente um novo cronograma que mostre como a passagem dos trens por 14 Bis será viabilizada após o atraso acumulado no canteiro.