O Metrô de São Paulo desistiu de uma liminar contra o Consórcio Expresso Monotrilho Leste (CEML), do qual faz parte a Bombardier e que pedia que a empresa apresentassse a “causa raiz” do incidente que fez um pneu do monotrilho da Linha 15-Prata explodir durante a operação. Desde o final de fevereiro, o ramal está parado para correções nas vias e nos trens. Na petição, o Metrô reclamava que a empresa não tomava as medidas necessárias para retomar o serviço e que acumulava prejuízos por conta da receita frustrada com tarifas e os custos necessários para oferecer o serviço de ônibus PAESE, que é gratuito.

Na carta enviada pela companhia nesta terça-feira, 5, o Metrô abre mão da “resolução do mérito”, ou seja, que a ação fosse julgada. A medida liminar havia sido negada pela juíza Paula Cometti por entender que a petição era em si o objetivo final da ação, ou seja, que primeiro a companhia deveria acionar o consórcio.

Em nota enviada ao site após a publicação do artigo, a companhia negou que haja “qualquer desistência por parte do governo do Estado para cobrar o ressarcimento aos prejuízos causados com a paralisação da Linha 15. A ação citada tinha objetivo exclusivo de exigir que o consórcio contratado apresentasse Plano de Trabalho para a retomada da operação da Linha, que está sendo avaliado pelas áreas técnicas do Metrô. Caso o Consórcio não cumpra suas obrigações, nova ação judicial será ajuizada, se necessário“.

Segundo disse recentemtente o secretário Alexandre Baldy, dos Transportes Metropolitanos, o consórcio reconheceu erros na implantação do projeto e estava tomando as medidas cabíveis para corrigir o problema, entre eles substituir partes do conjunto de rodas dos trens de monotrilho da Bombardier e também obras para retificar a superfície das vigas-trilho em vários pontos ao logo da linha.

Um sinal disso foi dado pelo próprio secretário em sua conta no Twitter ao afirmar nesta semana que “a Linha 15-Prata será retomada, para a utilização pelos cidadãos que tanto precisam. Nos próximos dias teremos anúncio a respeito“, prometeu.

“Cobaia”

O monotrilho Innovia 300 foi desenvolvido pela Bombardier na década passada como uma evolução do modelo Innovia 200, utilizado em uma linha na cidade de Las Vegas, nos EUA. Embora mais capaz e moderno, o trem até hoje só opera em São Paulo. A fabricante canadense, que passa por sérias dificuldades financeiras, chegou a anunciar uma encomenda na Arábia Saudita, mas que até hoje não se concretizou, além de outro pedido no Egito em 2019. Semanas atrás, a divisão ferroviária da Bombardier foi vendida para a francesa Alstom a fim de cobrir os imensos rombos financeiros do grupo canadense, que permaneceu apenas com sua divisão de aviação executiva.

Os requisitos técnicos da Linha 15-Prata preveem uma capacidade hora-sentido de 40 mil passageiros com intervalo de 90 segundos. O Metrô espera ter uma demanda diária de mais de 400 mil passageiros quando o ramal chegar à estação Ipiranga de um lado e Jacu-Pêssego do outro. Quando isso ocorrer, a linha será uma das maiores do mundo em monotrilho, atrás apenas do sistema operado na cidade de Chongqing, na China.

O conjunto de pneu e roda do monotrilho e o run-flat (Reprodução)

O ineditismo na implantação do ramal metroviário na Zona Leste, no entanto, traz indícios de que o Metrô acabou se transformando numa espécie de “cobaia” para o projeto da Bombardier, que até então nunca havia fornecido um sistema com essa capacidade. Os problemas com as irregularidades na via espantam já que as vigas-trilho foram confeccionadas sob medida e seguindo orientação da própria fabricante. Pelo grande número de correções necessárias, deduz-se que as sócias OAS e Queiroz Galvão produziram dezenas de vigas de qualidade duvidosa.

Espera-se, portanto, que o duro aprendizado com a Linha 15 sirva para evitar novos transtornos tão graves quanto esse no futuro, que fazia uma linha de 13 km deixar de funcionar por quase 70 dias até a publicação desse artigo.

Nota do editor: o texto foi alterado para acrescentar a resposta do Metrô.

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