Protesto na Linha 12-Safira ocorre em área crítica para expansão da Linha 2-Verde; entenda
Manifestação por moradia aconteceu na região da futura estação Gabriela Mistral, onde desocupação de terrenos é necessária para o avanço das obras do Metrô
O protesto por moradia que interrompeu temporariamente a Linha 12-Safira na manhã desta sexta-feira, 18 de setembro, ocorreu em uma região que enfrenta uma questão habitacional sensível e que também é estratégica para a expansão da Linha 2-Verde.
Cerca de 50 manifestantes bloquearam a Avenida Doutor Assis Ribeiro, na região do Cangaíba, e atearam fogo em objetos sobre a ferrovia entre Comendador Ermelino e São Miguel Paulista. A circulação foi interrompida por cerca de uma hora e meia e retomada ainda no início da manhã.
Não há evidências de que a manifestação tenha relação com as obras do Metrô. O protesto, no entanto, ocorreu nas proximidades da futura estação Gabriela Mistral, onde o governo estadual conduz um amplo processo de liberação de terrenos que inclui o reassentamento de famílias.
O local receberá um dos maiores complexos de transporte previstos na expansão da Linha 2-Verde. Além da estação subterrânea do metrô, Gabriela Mistral terá uma estação ferroviária em superfície para as linhas 12-Safira e 13-Jade e um terminal de ônibus.
Imóveis foram demolidos onde ficará a estação Gabriela Mistral, da Linha 2-Verde (rebU)
Nova Kampala ocupa área necessária às obras
A implantação do complexo exige terrenos dos dois lados da atual ferrovia. Em um deles, imóveis regulares desapropriados pelo Metrô já foram demolidos, deixando livre uma extensa área junto à Linha 12. O local já recebe trabalhos preparatórios, incluindo equipamentos para monitoramento do subsolo.
Do outro lado das vias está o núcleo Nova Kampala, comunidade que ocupa terrenos públicos entre a ferrovia e a Rua Gabriela Mistral. A necessidade de reassentar moradores dessa área tornou-se uma das questões mais delicadas para permitir o avanço das obras.
Em junho, o Metrô e a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) firmaram um convênio de R$ 155,3 milhões para atendimento habitacional e reassentamento das famílias afetadas.
O levantamento utilizado no acordo identificou mais de 2.100 edificações em Nova Kampala e uma população superior a 3 mil pessoas. Para a primeira etapa, o Metrô definiu como prioritária uma faixa junto à ferrovia com 467 construções.
A liberação dessa área não está ligada apenas aos edifícios definitivos da estação. O projeto prevê utilizar parte do terreno para o remanejamento provisório dos trilhos ferroviários durante as obras, além da implantação de um acesso secundário de Gabriela Mistral e intervenções no sistema viário.
Futura estação Gabriela Mistral
Demolições já mudaram cenário junto à Linha 12
Em agosto, imagens aéreas publicadas pelo MetrôCPTM mostraram que a remoção das construções de Nova Kampala já havia começado. Grandes clareiras surgiram junto à ferrovia, embora muitas moradias ainda permanecessem na comunidade.
O processo continuou nas semanas seguintes. No início de setembro, levantamento publicado pela Folha de S.Paulo apontou que cerca de 1.200 das aproximadamente 1.800 famílias consideradas no processo já haviam deixado a área, enquanto outras 600 permaneciam no local.
Moradores ouvidos pela reportagem contestaram as condições oferecidas para deixar suas casas, especialmente os valores destinados à mudança e ao auxílio-moradia. A CDHU afirmou possuir respaldo judicial para a desocupação e disse oferecer diferentes alternativas habitacionais às famílias.
Terreno interfere no avanço da Linha 2-Verde
Gabriela Mistral faz parte da segunda etapa da expansão da Linha 2-Verde entre Penha e Dutra, em Guarulhos. Seu contrato de obras integra o Lote 6, juntamente com a estação Aricanduva, e está atualmente prorrogado até dezembro de 2027.
A futura estação Gabriela Mistral da Linha 2-Verde (Arcadis)
A situação das duas estações, porém, é bastante diferente. Aricanduva já possui sua estrutura principal em estágio avançado, enquanto Gabriela Mistral ainda depende da liberação das áreas necessárias para que as principais obras civis possam avançar.
A dimensão do terreno também está relacionada à complexidade da futura integração ferroviária. Para criar as plataformas das linhas 12 e 13 e executar a estação da Linha 2, será necessário alterar temporariamente a configuração das vias existentes, razão pela qual a faixa ocupada junto à ferrovia aparece entre as áreas prioritárias para desocupação.
Assim, embora não haja relação comprovada entre o protesto desta sexta-feira e a construção da Linha 2-Verde, a manifestação voltou a chamar atenção para um problema habitacional existente justamente no entorno de uma das obras mais complexas da expansão do metrô na Zona Leste.
