Um guindaste cai e a culpa é do monotrilho?

Jornal do ABC usa acidente para dar voz a críticos do modal em meio a processo de caducidade da Next Mobilidade

Linha 15-Prata de monotrilhos (Jean Carlos)
Linha 15-Prata de monotrilhos (Jean Carlos)

O acidente ocorrido no sábado (24) na Linha 15-Prata foi grave e precisa ser investigado em todos os seus aspectos. Um guindaste utilizado em uma obra particular tombou e sua enorme lança atingiu a via elevada do monotrilho, sendo posteriormente atingida por um trem que circulava pelo local.

A partir daí, porém, o Diário do Grande ABC conseguiu uma proeza argumentativa: transformar a queda de um equipamento externo sobre uma linha de transporte em uma espécie de prova de que o Grande ABC teria se livrado de um problema quando o governo João Doria cancelou a Linha 18-Bronze.

“Região se livrou de ter o monotrilho, afirma especialista”, diz o título da reportagem publicada pelo jornal, baseado num contumaz crítico do modal.

A relação entre uma coisa e outra é difícil de sustentar. O guindaste não fazia parte da Linha 15-Prata. Não era operado pelo Metrô e tampouco tombou por causa da tecnologia utilizada pelos trens. Sua lança simplesmente invadiu a via que estava em seu raio de queda.

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Poderia ter atingido uma avenida, uma edificação, uma ferrovia convencional ou um corredor de ônibus. Calhou de encontrar no caminho a estrutura elevada da Linha 15. Nem sequer sabemos quais teriam sido as consequências caso uma lança daquele porte tivesse atingido integralmente o nível da rua.

É legítimo investigar se os sistemas da Linha 15 poderiam ter identificado a obstrução antes da colisão. Também é legítimo perguntar se havia alguma maneira de interromper a circulação mais rapidamente. São questões técnicas que dependem da reconstrução do acidente.

Instantes antes que monotrilho atingisse parte do guindaste (Reprodução )

O que não é razoável é transformar a queda de um guindaste sobre uma ferrovia em argumento contra a tecnologia dessa ferrovia.

Também surgiram especulações de que a colisão teria sido evitada caso houvesse um condutor no trem, já que a Linha 15 opera de forma automática. Até agora, não foram apresentados elementos suficientes para sustentar essa conclusão.

Seria necessário saber quando a lança invadiu a via, a que distância estava o trem, sua velocidade, quando uma eventual frenagem foi iniciada e qual era a distância necessária para imobilizá-lo. Tampouco é possível presumir que um condutor perceberia imediatamente o obstáculo e teria tempo físico para impedir o choque. Trens não freiam instantaneamente.

Há ainda um fato pouco conveniente para quem pretende usar o episódio como demonstração da fragilidade do monotrilho. Apesar do impacto com uma enorme estrutura metálica, o trem sofreu danos aparentemente concentrados em sua parte frontal, prosseguiu após a colisão e posteriormente pôde ser levado ao pátio. Não houve feridos.

Isso não prova que o monotrilho seja infalível. Mostra apenas como é imprudente utilizar este acidente específico para provar justamente o contrário.

Imagem do estado em que ficou a máscara do trem de prefixo M03, após colisão com guindaste na Linha 15-Prata (Reprodução Redes Sociais)

Uma comparação pela metade

A reportagem do Diário vai além do acidente e recupera a Linha 18-Bronze, projeto que ligaria São Paulo, São Caetano, São Bernardo e Santo André e que foi cancelado pelo governo estadual em 2019.

O principal argumento apresentado contra o monotrilho é seu custo. Um dos entrevistados, conhecido por sua histórica aversão ao monotrilho, afirma que o custo por usuário/quilômetro poderia chegar a oito vezes o de um metrô convencional. Outro resume a comparação dizendo que, pelo preço de um quilômetro de monotrilho, seria possível construir dez quilômetros de BRT.

Custo é uma variável essencial em qualquer projeto de transporte público. Mas não é a única.

Onde estão nessa comparação a capacidade dos sistemas? A demanda prevista? A velocidade comercial? O intervalo entre veículos? O tempo de viagem? A vida útil da infraestrutura e dos veículos? O custo operacional ao longo das décadas?

Onde entra a integração gratuita da Linha 18 à rede metroferroviária, permitindo que o passageiro continuasse sua viagem dentro de um sistema único sobre trilhos? E onde estão os impactos urbanos de cada alternativa?

Ônibus do BRT ABC (Next)

Um corredor de ônibus também ocupa espaço, exige infraestrutura, terminais e pontos e interfere na circulação existente. Um sistema sobre trilhos também tem uma capacidade comprovada de produzir transformações urbanas positivas ao redor de suas estações. Nenhuma dessas questões pode ser resolvida pela conta simplista de quantos quilômetros de uma tecnologia supostamente cabem no preço de um quilômetro de outra.

Há ainda tecnologia e meio ambiente. Um sistema elétrico sobre trilhos e um corredor rodoviário possuem características distintas de operação, capacidade, consumo energético, manutenção e vida útil. Tudo isso deveria fazer parte de uma comparação que pretendesse determinar qual alternativa era mais adequada ao Grande ABC.

Discurso mudou

Curiosamente, o próprio Diário do Grande ABC já tratou a questão de maneira bastante diferente.

Quando a Linha 18 ainda estava ameaçada de cancelamento, o jornal publicou estudos que apontavam demanda de cerca de 340 mil passageiros por dia e recuperou uma avaliação técnica do próprio governo estadual que considerava o monotrilho a solução adequada para aquele corredor.

Naquela época, a substituição da Linha 18 pelo BRT era tratada com desconfiança e o jornal acompanhava as críticas à decisão do governo João Doria.

O tempo passou e o discurso mudou.

O BRT-ABC acumulou sucessivos atrasos e ainda não transportou um único passageiro. Mais recentemente, quando a Artesp abriu processo que pode levar à caducidade do contrato da Next Mobilidade, o Diário passou a adotar uma postura particularmente crítica à agência reguladora e favorável aos argumentos apresentados pela concessionária.

Chegou a chamar a possibilidade de participação da CPTM na conclusão do empreendimento de “gambiarra” e questionou a experiência da companhia ferroviária com ônibus, embora a hipótese apresentada pela Artesp fosse utilizar a CPTM para conduzir a conclusão das obras, e não transformá-la em operadora de ônibus.

Agora, um acidente provocado pela queda de um guindaste sobre a Linha 15 serviu de oportunidade para revisitar a Linha 18 e concluir que o ABC teria “se livrado” do monotrilho.

É uma conclusão especialmente curiosa diante da situação atual.

Projeção mostra a Linha 18-Bronze (VEM ABC)

A Linha 18-Bronze foi contratada em 2014 e cancelada em 2019. Em seu lugar foi prometido um BRT apresentado como mais barato, simples e rápido de implantar. Sete anos depois da troca, o sistema ainda tem longos trechos incompletos, enquanto sua concessionária enfrenta um processo de caducidade aberto pela Artesp.

É perfeitamente legítimo defender que o BRT era uma solução melhor para o Grande ABC. Assim como é legítimo considerar que a Linha 18 tinha problemas técnicos ou econômicos.

Mas uma discussão séria exige colocar todas as variáveis na mesa, confrontar opiniões divergentes e, sobretudo, separar as deficiências de uma tecnologia de um acidente provocado por um equipamento que caiu sobre sua infraestrutura.

Caso contrário, não estamos comparando sistemas de transporte. Estamos apenas escolhendo a dedo os argumentos que justificam uma opinião já consolidada antes da apuração.