O roteiro já é mais do que conhecido e típico do jornalismo preguiçoso que muitas vezes afeta a maior rede de TV do Brasil: mostra-se um atraso numa obra, entrevistam-se pessoas afetadas por isso, explica-se o que deveria ter sido feito, ouve-se o governo e por fim vem a velha expressão de indignação do apresentador do telejornal. Nesta sexta-feira, 25, no entanto, os protagonistas dessas “reportagens clichê” passaram da conta.

Ao tentar criar a conhecida repercussão negativa sobre o atraso de mais uma obra do Metrô de São Paulo, o jornalista César Tralli soltou um absurdo: as obras da extensão da Linha 2-Verde após Vila Prudente deveriam ter ficado prontas em 2013, segundo ele.

Para o jornal SP1, o Metrô deveria ter concluído a obra antes mesmo da assinatura do contrato, que ocorreu em 2014, ou seja, no ano seguinte. A reportagem foi além: misturou assuntos ao citar uma licitação que foi anulada nesta semana como pretexto para justificar a crítica aos atrasos. Só que o certame em questão, de número 40208212, é de 2008 e envolve um serviço que nada tem a ver com a extensão da Linha 2 e sim com a via permanente do trecho entre Alto do Ipiranga e Vila Prudente e que já está em operação há uma década.

O SP1 cita o Tribunal de Contas do Estado como fonte para a data de 2013, mas ignora-se onde o telejornal viu tal informação. No painel que o TCE disponibiliza ao público, e que foi citado por um artigo do site nesta semana, não há qualquer menção a esse ano, apenas a paralisação de alguns contratos em outubro de 2014, um mês após sua assinatura.

A licitação de extensão da Linha 2-Verde foi lançada em agosto de 2012 ainda como Linha 15-Branca, por conta de uma manobra burocrática do Metrô para viabilizar o monotrilho da atual Linha 15, então chamado de Linha 2. No entanto, o processo de seleção dos consórcios teve idas e vindas e só foi resolvido dois anos depois. O governo do estado inclusive conseguiu viabilizar junto ao BNDES um empréstimo de R$ 1,5 bilhão na época, porém, a situação econômica do país já estava em declínio e a gestão Alckmin decidiu congelar o projeto e se concentrar nas obras em andamento.

O apresentador César Tralli no SP1: obra entregue antes de ser contratada (Reprodução)

Felizmente, os processos de desapropriação seguiram em frente e hoje quase toda a área necessária para a construção das 13 novas estações está liberada ou em vias de ser repassada ao estado. Caso contrário, haveria mais atrasos no início das obras, que ainda estão em ritmo lento de fato, mas nada muito diferente de outros projetos de metrô subterrâneo. De correto, o jornal afirmou que a obra encolheu. De fato, a gestão Doria priorizou o trecho entre Vila Prudente e Penha e que deve ser entregue entre 2025 e 2026. A chegada em Guarulhos, por sua vez, ficará para uma segunda fase ainda sem previsão.

Os primeiros canteiros estão começando a ser montados e o consórcio que fará a escavação dos túneis está perto de encomendar o “tatuzão” que será usado. O governo, no entanto, espera pela liberação de um financiamento no exterior no valor US$ 550 milhões (cerca de R$ 3 bilhões), mas que depende do Cofiex, órgão federal que analisa a proposta.

Checagem dos fatos

Este site lamenta que uma das maiores empresas de comunicação do país, com uma equipe numerosa de jornalistas, produza uma reportagem tão pobre e mal apurada. Erros acontecem em qualquer redação, mas essa postura das reportagens dos telejornais da Globo é mais do que conhecida, como dissemos. Os repórteres parecem instruídos a provocar os passageiros e moradores a falar mal do governo, relatar suas dificuldades para fornecer justificativa para as críticas. Curiosamente, em muitos casos isso acaba não ocorrendo ou tendo efeito contrário, com elogios e reconhecimento pelo serviço.

O trecho que será construído, segundo o governo

A impressão é que ao SP1 só interessava uma manchete polêmica ao bater na tecla de que a obra está atrasada “7 anos” quando praticamente está começando. Mesmo que tivesse seguido em frente em 2014 possivelmente as primeiras estações estariam perto de serem entregues caso não fossem afetadas por imprevistos, o que é comum nesse tipo de empreendimento, infelizmente.

A cobrança da imprensa é fundamental para que obras assim sejam tocadas dentro das expectativas, mas isso não significa distorcer a realidade e produzir mais desinformação. Já não bastam as fake news que afetam sobretudo a grande imprensa e agora temos que conviver com ela mesma contribuindo para mais confundir do que esclarecer. É para se lamentar.

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