A antes movimentada Linha 9-Esmeralda se prepara para grandes mudanças. Segundo ramal mais movimentado da CPTM até antes da pandemia, a linha será concedida à iniciativa privada em 2021 e também passará a contar com mais três estações – Mendes-Vila Natal, Varginha e João Dias. São justamente essas duas últimas que compartilham uma mesma previsão de entrega, em 2022.

Mas basta acompanhar o andamento dos trabalhos para constatar que João Dias parece que ficará pronta antes – algo que a própria companhia admitiu recentemente. Já Varginha passou a apresentar um volume maior de atividade nos últimos meses, porém, ainda aquém do que se vê em outros canteiros espalhados pela capital paulista. Para muitas pessoas, a razão é simples: a estação na Marginal Pinheiros avança rapidamente por ser bancada exclusivamente pela iniciativa privada.

No entanto, resumir a diferença entre as duas estações apenas a isso é simplista demais. De fato, a estação João Dias não enfrenta a burocracia estatal, que impõe controles de avanço do cronograma e uso de materiais e equipamentos. O desembolso para o consórcio Engibrás, responsável pela obra de Varginha, também é complexo e envolve recursos federais, o que pode ser uma enorme dor de cabeça.

Mas há de se reconhecer que a obra de extensão até Varginha é um projeto maior, que envolve a implantação de vias e sistemas enquanto João Dias está sendo construída em meio ao trecho operacional. Por outro lado, no extremo sul da capital os funcionários não estão sujeitos à passagem de trens em intervalos constantes.

Em relação ao custo há também uma diferença significativa. A estação João Dias custará cerca de R$ 60 milhões, doados pela empresa Brookfield Properties, dona do edifício comercial que abrigará seu acesso. Já Varginha foi licitada por R$ 87 mihões, ou quase 50% a mais. A área construída também é maior assim como a previsão de demanda. São esperados 50 mil passageiros diariamente em Varginha contra apenas 10,5 mil em João Dias.

A implantação da estação ‘privada’ também enfrenta menos dificuldades. A área interditada é pequena já que o acesso estava previsto dentro do terreno das torres comerciais. O projeto terá apenas esse prédio com salas técnicas, uma passarela e a plataforma central, que teve as primeiras lajes lançadas nos últimos dias. A passarela metálica também está sendo fabricada e não será surpresa se a obra bruta for concluída ainda nos primeiros meses de 2021, restando apenas os sistemas e acabamento.

Enquanto isso, Varginha terá uma estrutura mais robusta e com mais acessos – além de um fututo terminal de ônibus que não está no atual escopo. As obras já havia sido iniciadas por outro consórcio, que chegou a construir a plataforma e algumas colunas. A Engibrás agora está justamente dando sequência à esse trabalho, além de iniciar as fundações de outros prédios. Mesmo assim, o ritmo é lento, indicando que a futura estação terminal pode ser inaugurada apenas em meados de 2022.

Experiência positiva e por enquanto única

Não há como negar, entretanto, que a concepção da estação João Dias é um excelente exemplo de participação da iniciativa privada na mobilidade sobre trilhos. A Brookfield teve uma visão de longo prazo ao propor construir a nova parada, a despeito de desembolsar R$ 60 milhões no projeto. Ou seja, ela certamente enxergou que o retorno de possuir um empreendimento corporativo ligado à Linha 9 compensaria esse gasto. Imagina-se quantas outras estações poderiam ter sido viabilizadas com recursos privados se o governo do estado tivesse previsto isso antes.

Infelizmente, a letargia do poder público muitas vezes desperdiça chances como essa. A própria Brookfield poderia ter desistido da ideia por falta de interesse do governo do estado, que levou anos para aceitar a doação. É um absurdo, para dizer o mínimo.

Espera-se que a experiência positiva de João Dias abra os olhos de nossos gestores e mais exemplos como esse brotem pela região metropolitana. De preferência, no mesmo ritmo acelerado dessa obra.