Cartão TOP apenas para transporte vira raridade em São Paulo

Reportagem do jornal Folha de São Paulo encontrou apenas um ponto da versão “pura”, que não inclui funções de débito e crédito, associadas às Casas Pernambucanas

O governo Doria lançou o Cartão TOP no final do ano passado (Jean Carlos)

O controvertido cartão TOP, apresentado pelo governo do estado como solução para facilitar a vida do passageiro no transporte público em São Paulo, não apenas ainda traz dores de cabeça aos passageiros que o utilizam, mas também uma nova dificuldade. Segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo, é raridade encontrar a chamada versão “pura” do cartão, que serve apenas para armazenar créditos para uso nos ônibus e trens.

Após percorrer 25 pontos de venda do TOP, a Folha encontrou o cartão básico em apenas um deles, numa loja em Pinheiros das Casas Pernambucanas, parceira escolhida pela Autopass, a operadora do sistema.

Nos demais endereços só era possível adquirir o TOP associado a um cartão de débito e crédito de bandeira Mastercard e não por acaso ligado a rede Pernambucanas. Ainda segundo a reportagem, os relatos mais ouvidos nos locais visitados era de que as máquinas do cartão ‘puro’ haviam sido levadas, restando apenas o modelo ‘híbrido’.

Segundo o governo, para adquirir o cartão apenas para transporte existe um único local dentro da rede sobre trilhos, a estação Belém, da Linha 3. O posto funciona das 6h às 22h e é preciso portar um comprovante de endereço e RG ou CPF.

Algumas bilheterias foram transformadas em postos de atendimento do TOP (Jean Carlos/SP Sobre Trilhos)

Sem licitação

O anúncio do cartão TOP ocorreu em outubro do ano passado quando então secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, revelou de surpresa que todas as bilheterias do Metrô e da CPTM seriam fechadas até dezembro de 2021. A solução viria por meio do QR Code, o citado cartão, de um aplicativo de celular e do credenciamento de comércios próximos às estações, que carregariam os cartões.

No fim, apenas as bilheterias das estações Granja Julieta e Belém foram encerradas. O governo então não voltou a prometer datas para fechar as demais enquanto lidava com o imenso volume de reclamações do TOP.

A escolha do TOP como substituto do BOM e dos bilhetes magnéticos foi feita de forma pouco usual. Em vez de promover uma licitação para selecionar a melhor proposta e tecnologia, a gestão do ex-governador João Doria encontrou um “atalho” ao incluir o Metrô de São Paulo e a CPTM como associados da ABASP (Associação da Bilhetagem e Arrecadação nos Serviços Públicos de Transporte Coletivo de Passageiros do Estado de São Paulo), uma entidade sem fins lucrativos formada por operadores de ônibus da EMTU.

A ABASP, por sua vez, contratou a Autopass diretamente, já que como entidade privada, não precisa realizar concorrências públicas. Como o site mostrou anteriormente, a Autopass tem como um de seus sócios José Romano Netto, filho de Maria Beatriz Setti Braga, proprietária da concessionária Metra, que opera o Corredor ABD, da EMTU.

O mesmo governo Doria viabilizou a extensão da concessão com a Metra, num pacote de mais de R$ 22 bilhões, incluindo linhas de ônibus intermunicipais e o ‘BRT-ABC’, sem licitação.

A escolha do TOP pela Secretaria dos Transportes Metropolitanos é investigada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). No entanto, o processo não teve qualquer movimento conhecido desde maio.