Quando anunciou a aposentadoria dos velhos trens espanhois da Série 2100 na Linha 10-Turquesa, o secretário Alexandre Baldy não quis explicar como isso seria feito. Mas informações que circulavam na internet já antecipavam um movimento incomum. Segundo elas, a CPTM faria um rodízio para conseguir levar trens mais novos para o ramal da região do ABC Paulista, mas Baldy só revelou que a Série 7000, a mais numerosa da companhia, seria usada para cobrir a saída dos lentos trens espanhois.

O que se comentava era que a Linha 9-Esmeralda cederia 10 unidades do 7000 para a Linha 10 e que para suprir a lacuna passaria a contar com composições da Série 8000. E é aqui que tudo ficava nebuloso. Como se sabe, os 36 trens da Série 8000, construídos pela CAF, são usados pela CPTM por meio de uma parceria público-privada com a CTrens, empresa de propriedade da fabricante espanhola.

Mas, por conta do atraso da instalação do sistema CBTC na Linha 8, esses 36 trens estão sobrando já que com a atual infraestrutura não há como inserir mais composições sem comprometer a segurança. Na gestão Alckmin, no entanto, nunca se cogitou utilizar esse excedente para, por exemplo, compor a frota da Linha 9, que opera em vias próximas às da Linha 8. Mas o atual governador João Doria resolveu bancar uma mudança nessa situação levando 12 unidades para o ramal Esmeralda.

Lista dos trens escalados para irem da Linha 8 para Linha 9 (Reprodução Rede Noticiando)

Até hoje, no entanto, não havia nenhuma confirmação sobre essa transferência até que o site Rede Noticiando obteve com uma fonte dentro da CPTM a lista de trens que estarão já a partir deste domingo migrando para a Linha 9. Segundo esse documento, nada menos que 12 unidades da Série 8000 serão cedidas, justamente as mais rodadas como o trem S 024, com 891.215 km de uso.

O primeiro trem a receber um novo mapa de estações e itinerários das sancas das portas e já será transferido neste domingo. Os demais serão enviados durante os próximos dias para que na quarta-feira, conforme dito por Baldy, a Linha 10 possa operar apenas com equipamento recente – recebendo o excedente de trens da Linha 9.

Para os passageiros da Linha Esmeralda, a chegada da Série 8000 provocará uma mudança na viagem já que esses trens possuem a chamada passagem livre entre os vagões, ao contrário da Série 7000. Em outras palavras, será possível percorrer seu interior em caso de áreas lotadas, o que favorece uma ocupação mais equilibrada. Por outro lado, a Série 8000 também facilitará a vida dos inúmeros ambulantes que circulam na linha e que já transformaram a Linha 8 em um autêntico “shopping trem”.

Contrato pouco claro

O site havia questionado a CPTM sobre os rumores de mudança, porém, até esta data não teve qualquer resposta. A atual gestão, após promover um encontro com a imprensa especializada em mobilidade em que promoveria uma maior transparência, parece ter mudado de opinião. Pedidos de esclarecimentos de vários veículos têm sido ignorados.

Seria de bom tom, no entanto, explicar à opinião pública como o atual governo conseguiu que a CTrens cedesse parte da frota da Linha 8 para outro ramal, algo que não estava previsto na parceria e que não foi cogitado na gestão Alckmin.

Lendo o contrato da parceria, não encontramos algum trecho que proíba a utilização dos Série 8000 em outras linhas. No objeto do contrato, ou seja, onde a há a descrição do teor da parceria, existe apenas uma menção genérica sobre a Linha 8 – Diamante:

Trecho do contrato da PPP de manutenção dos trens da Série 8000 (Reprodução)

Ou seja, parece não existir alguma cláusula explícita impedindo que os trens sejam deslocados para outros ramais. Porém, seria do interesse da CTrens que essas composições circulassem apenas onde o contrato estabelece, ou seja, a Linha 8. Imagine-se uma situação hipotética em que ocorra um acidente/incidente com algum desses trens em operação na Linha 9 ou alguma possível falha  de manutenção, como ficaria a correção desse defeito ou uma indenização em caso de prejuízos para a CPTM?

Espera-se que o governo tenha tido o cuidado de documentar uma possível revisão nesse contrato cujo prazo de 20 anos deverá se encerrar por volta do final da próxima década. Desde que dentro da lei, a mudança é benéfica para os passageiros ao corrigir uma distorção causada pelos planos frustrados de instalar o sistema CBTC na Linha 8. Em uma companhia que somente agora, 27 anos depois de ter sido fundada, está perto de conseguir aposentar os velhos trens herdados da CBTU, trata-se de uma ótima notícia.