ViaMobilidade tinha ciência de que parte dos trens seria entregue sem revisão realizada

Um dos requisitos da concessão das linhas 8 e 9 seria a realização da chamada revisão F. Empresa aponta estado de dois terços da frota como uma das causas para problemas na operação
Composições da série 7000 na estação Júlio Prestes (Jean Carlos)

Com três meses de operação sob sua total responsabilidade, a ViaMobilidade Linhas 8 e 9 segue com dificuldades para manter o serviço das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda em condições mínimas de eficiência. O acúmulo de falhas e problemas fez a Secretaria dos Transportes Metropolitanos multar a concessionária recentemente, mas concedendo a ela o direito de justificar os motivos para os problemas.

Em uma das respostas enviadas pela ViaMobilidade, e obtida pelo site Diário do Transporte, a concessionária alega que mais da metade dos trens repassados pela CPTM possui “pendências de manutenção vitais para o seu bom funcionamento”, o que potencializou o número de falhas, incluindo a que levou uma composição a sofrer um acidente na estação Júlio Prestes.

No entanto, como o site já mostrou em matérias passadas, as condições de manutenção dos 38 trens repassados pela CPTM eram de conhecimento das empresas que participaram da licitação, inclusive da própria ViaMobilidade.

Os trens referidos no documento são os mais antigos em circulação nos trechos regulares, das séries 7000 e 7500, e dos quais parte não recebeu a revisão F, realizada por volta de 1.200.000 km de rodagem. 

De acordo com os manuais dos fabricantes dos trens, existem parâmetros claros e objetivos sobre os níveis de revisão. Estas revisões são manutenções programadas com nível crescente de complexidade. Sua realização é essencial para que os equipamentos funcionem adequadamente.

As revisões são divididas em sete níveis, de A até G, conforme a quilometragem rodada das composições. Confira abaixo quais são os pontos para a realização de cada revisão e seus limites:

Marcos para a realização das revisões (CAF)

Tendo em vista os limites estabelecidos acima é necessário verificar o estado das composições antes de serem repassadas pela concessionária. Os dados de quilometragem dos trens são públicos e fizeram parte do edital de concessão das Linhas 8 e 9.

Quilometragem dos trens da série 7000 (STM)

Quilometragem dos trens da Série 7500 (STM)

Ressarcimento sobre revisões feitas pela CPTM

Com base nos dados expostos, boa parte dos trens deveria ter recebido a Revisão F antes de ser entregues à concessionária. Com exceção de 3 composições, sendo duas delas acidentadas, todas as demais estavam com mais de 100 mil km de atraso nas revisões, muito acima do limite estabelecido pelo fabricante.

Antes de serem repassadas, o contrato de manutenção das composições estava sob as mãos de uma empresa terceirizada e durante este período foram realizadas 14 revisões de nível F.

Para reforçar a ciência do estado dos trens, antes da realização do leilão foram feitos vários questionamentos acerca das obrigações da concessionária em realizar as revisões das composições.

Em um dos artigos publicados pelo site no ano passado a STM esclareceu que a concessionária seria a responsável por realizar todas as revisões de rotina, incluindo as de nível F. Também foi exposto que nem todos os trens receberam a revisão.

Em outra publicação, também em 2021, uma das empresas interessadas questionou se a CPTM entregaria os trens com as revisões realizadas, o que foi negado pela gestão estadual. Dos trens das séries 7000 e 7500 apenas 14 foram revisados, cabendo à concessionária a realização dos procedimentos nos demais trens.

Além deste fato, as revisões já realizadas pela CPTM foram passíveis de equilíbrio econômico-financeiro em favor do poder concedente, ou seja, as revisões das 12 composições realizadas pela CPTM devem ser ressarcidas pela ViaMobilidade.

A importância da manutenção

Como já ressaltamos, a manutenção dos trens é determinada pelo fabricante e o não cumprimento dos planos podem gerar situações atípicas que podem evoluir para falhas mais graves. Em uma viagem na linha 9 o site flagrou uma composição da série 7000 trafegando com uma das portas isoladas, ou seja, sem funcionamento.

Segundo o relatório emitido pela ViaMobilidade em resposta a STM, é possível constatar que existem composições com mais de 1,9 milhão de quilômetros rodados sem a revisão F. 

Este atraso representa um acréscimo de aterradores 55% sobre a quilometragem estabelecida pelo fabricante. Em termos de manutenção a situação exige urgência. Por mais que as revisões de menor porte possam sanar os problemas mais recorrentes, apenas as revisões profundas podem, de fato, revitalizar as composições e garantir seu pleno funcionamento.

A solução é a revisão

A única solução para este problema é a realização das revisões programadas, não há outra forma de remediar este problema. O contrato de concessão estabelece regramentos quanto a devolução dos trens sendo que a partir de 28º mês a partir da assinatura do contrato as primeiras composições deverão ser devolvidas com as revisões F realizadas.

Cronograma para a devolução dos trens (STM)

Tendo em vista a data base de assinatura como sendo junho de 2021, a ViaMobilidade deverá devolver as primeiras composições das séries 7000 e 7500 a partir de outubro de 2023. Cabe ressaltar que, além da revisão F, deverão ser devolvidos os trens com menor quilometragem.

Com a maioria dos trens com a revisão vencida, a ViaMobilidade deverá se desdobrar para atender as demandas de manutenção ao mesmo tempo que mantém a operação com o maior índice de disponibilidade possível. Tudo isso indica que, durante um bom tempo, a concessionária deverá enfrentar dificuldades.

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  1. Boa noite.
    Entregar os trens sem revisão é irresponsabilidade, mas não foi só isso que aconteceu, antes de entregar para a via mobilidade eles trocaram os trens, pegaram os trens mais sucateados das demais linhas e colocaram aqui na linha 8 e 9, só tem os trens problemáticos. Mas a via mobilidade tinha que ter visto isso. Agora não adianta chorar.

  2. Resumindo ;
    A CPTM nunca fez as manutenções preventivas que deveria fazer., desde a sua fundação há trinta anos ou talvez de antes, no tempo da FEPASA e Rede
    Nem nas frotas que foram para a Via mobilidade nem em qualquer outra.
    E tem gente aqui que defende esta empresa….
    Mereciam um processo por falta de responsabilidade ..
    Cadê o CREA que não pune os engenheiros responsáveis pela integridade dos trens ?
    Concessão de todas as linhas JÁ !

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