O “BRT de Doria e Baldy” passado a limpo

Corredor de ônibus que será bancado pela Metra após ser agraciada com mais 25 anos de concessão é projeto muito aquém das promessas do governo do estado de um transporte eficiente como seria a Linha 18-Bronze
Corredor de ônibus BRT ABC: perfumarias e tempo de viagem semelhante aos ônibus comuns que operam hoje (GESP)

Foram necessários 675 dias para que o governador João Doria e o secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, revelassem do que se tratava o “BRT ABC”, corredor de ônibus que será implantado no mesmo trajeto da Linha 18-Bronze do Metrô, cancelada pelo tucano em julho de 2019.

E a constatação com as primeiras informações sobre o projeto são as piores possíveis. Pelo pouco mostrado na apresentação em vídeo e nas declarações dos dois políticos, o projeto que será bancado pela Metra graças à extensão e ampliação do contrato de concessão do Corredor ABD por mais 25 anos, será basicamente uma faixa exclusiva de ônibus com “perfumarias” para parecer com um sistema sobre trilhos.

Nada de canaletas segregadas do trânsito comum, passagens em nível para evitar cruzamentos e tornar a viagem mais rápida ou qualquer outro investimento mais volumoso, daí o fato de o orçamento do projeto ter sido apresentado com uma quantia de R$ 860 milhões – embora o prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, tenha mencionado mais de R$ 1 bilhão.

Morando, aliás, também falou na coletiva e fez questão de ressaltar que a construção do piscinão de Jaboticabal, na divisa entre São Bernardo, São Caetano e São Paulo, será fundamental para evitar enchentes que prejudiquem o funcionamento do corredor. Preço do projeto? Segundo o consórcio de prefeituras do ABC, 238 milhões de reais; de acordo com Doria, mais de 700 milhões de reais.

A seguir, o site comenta as informações divulgadas nesta sexta-feira:

Trajeto

O BRT ABC fará praticamente o mesmo trajeto da Linha 18-Bronze, saindo do Paço Municipal de São Bernardo e seguindo paralelo ao Córrego dos Meninos até São Caetano do Sul, onde irá sentido a estação Tamanduateí, da Linha 2-Verde. Só então, os ônibus farão o percurso até Sacomã e não numa segunda via em Y, como havia sido cogitado. A opção certamente envolve a redução de custos e simplificação do projeto, a cargo da Metra. Ao todo serão 18 km de extensão contra 14,7 km do modal de monotrilho.

Corredor terá 18 km e passará pelas estações Tamanduateí e Sacomã (GESP)

Tempo de viagem

Eis aí um dos pontos mais decepcionantes da proposta de Doria e Baldy. O governo revelou que a viagem do serviço expresso levará 40 minutos entre os terminais São Bernardo e Sacomã, ou seja, até Tamanduateí estima-se que leve um pouco menos tempo. Ainda assim é uma viagem bem mais lenta que a proporcionada pelo monotrilho, que circularia totalmente segregado da malha urbana.

Não se sabe afinal quantos minutos os serviços semi-expresso e parador levarão para cumprir o mesmo trajeto, mas basta uma constatação simples para que a atratividade do corredor seja bastante questionada: hoje os ônibus que atendem a estação Sacomã levam entre 30 a 50 minutos no trânsito comum, dependendo do horário e trajeto (segundo dados levantados pelo Google Maps).

Estimativa de tempo de viagem entre o centro de São Bernardo e a estação Sacomã fora do horário de pico (Google Maps)

Uma das explicações para esse desempenho abaixo do esperado pode estar na velocidade média do BRT, de 27 km/h no serviço expresso (e cujas paradas não foram informadas). Os ônibus comuns, por sua vez, fazem um trajeto mais curto até a estação Sacomã e utilizam parte da Via Anchieta, onde podem desenvolver maior velocidade, embora estejam sujeitos a congestionamentos.

No entanto, parece insensato investir num corredor que foi vendido como um equivalente ao Metrô, mas mal consegue oferecer uma viagem mais rápida do que a existente.

Semáforos sincronizados

Um dos velhos argumentos usados pelos defensores do BRT, os semáforos sincronizados, que darão preferência aos ônibus, são uma solução paliativa para aumentar a velocidade média, mas não eliminam intercorrências comuns como congestionamentos e o fato de que também os veículos fora da faixa se beneficiam de pistas mais livres.

O caminho correto para garantir um desempenho uniforme seria a construção de passagens elevadas em pontos críticos, mas isso encareceria o projeto, algo que ficou bastante claro, não é interesse do governo quanto mais da concessionária.

O percurso no centro de São Bernardo (GESP)

Faixa exclusiva

O vídeo divulgado pela gestão Doria revela que a Metra não fará grandes intervenções para separar o fluxo de ônibus das pistas das avenidas por onde será implantado. Em vez disso, as vias cederão espaço para a criação de faixas exclusivas, como nos velhos corredores de ônibus da prefeitura de São Paulo. As imagens ainda sugerem não existir qualquer barreira que impeça que automóveis ou motos possam invadir as faixas de ônibus, embora isso não possa ser confirmado ainda.

Curiosamente, trata-se de uma solução inferior à do Corredor ABD, implantado nos anos 80 com canaletas devidamente separadas do trânsito comum.

Um dos trechos do vídeo dá uma boa ideia do impacto do corredor na região do Rudge Ramos. Onde correm paralelas as avenidas Guido Aliberti e Lauro Gomes, haverá a supressão de três faixas de rolagem e a eliminação da pista sentido São Bernardo da Guido Aliberti. Já no sentido São Caetano, é possível notar a implantação de uma nova via do lado oeste do córrego.

Nada de canaleta ou obras de alargamento, apenas a supressão de pistas existentes (GESP)

20 paradas

Uma das possíveis vantagens de um corredor de ônibus, a quantidade maior de paradas que uma linha de metrô, não será um grande diferencial no BRT ABC. Em vez das 14 estações da Linha 18, 20 pontos de ônibus, sendo que dois deles entre Tamanduateí e Sacomã, trecho inexistente no projeto do monotrilho. No entanto, a Linha Bronze possuía uma estação terminal extra, Djalma Dutra, o que significa dizer que o corredor terá na prática cinco paradas a mais.

Projeto de estação da Linha 18-Bronze: tempo de viagem de 26 minutos (Fernandes Arquitetos)

“Perfumarias”

As “inovações” propaladas pela gestão Doria dizem respeito apenas a soluções que podem ser usadas em qualquer sistema de ônibus, BRT ou não. Entre elas estão os pontos de ônibus fechados (chamados de ‘estações’), com climatização, bloqueios, wi-fi e a pérola da “tecnologia”, o embarque e desembarque no nível das portas dos ônibus, como se uma base de concreto fosse alguma descoberta científica.

Para reforçar o caráter de marketing do modal, haverá informação sobre tempo de espera (novamente, nada de inédito) e o Centro de Controle Operacional, mostrado no vídeo como uma sala envidraçada no terminal São Bernardo emulando uma tecnologia semelhante aos reais CCOs dos sistemas sobre trilhos, que de fato controlam o movimento dos trens.

A cereja do bolo será a iluminação em LED que à noite dará um toque especial de modernidade ao projeto.

Chamadas de ‘estações’, pontos de ônibus não trazem nenhum ineditismo ou tecnologia que não possa ser implantada em qualquer outro corredor (GESP)

Ônibus elétricos

Recente adição no manual do BRT, os ônibus elétricos serão exclusivos no projeto, segundo o governo. Os 82 veículos articulados serão fabricados no Brasil, o que agrada de sobremaneira as montadoras instaladas no país. Não serão trólebus, que exigem uma infraestrutura de alimentação aérea e subestações de energia, como uma linha férrea. Em vez disso, usarão baterias que necessitarão de recarga em intervalos regulares.

A despeito do “CCO”, os ônibus, ao que tudo indica, não serão guiados por um sistema de controle e sim por motoristas de carne e osso.

82 ônibus fabricados no Brasil com propulsão elétrica, para satisfação da indústria automobilística (GESP)

Sem sinal de ciclovia

Um dos benefícios das vias elevadas do monotrilho seria o aproveitamento da área abaixo delas para a implantação de uma ciclovia além de paisagismo, como se percebe na Linha 15-Prata. Mas na concepção do corredor não há espaço para ciclistas enquanto há menção a um reurbanização das margens do córredo.

Com ocupação na superfície, projeto não permite ganhos em outras áreas (GESP)

As declarações de Doria e Baldy

“Primeiro BRT no estado de São Paulo”

Doria, logo na abertura da apresentação, chamou o projeto de “primeiro BRT no estado de São Paulo”, mas ignorou o Expresso Tiradentes, que opera em via elevada, segregada e com terminais ligando o Sacomã e Vila Prudente ao Parque Dom Pedro. A princípio, o sistema da prefeitura paulistana atende aos critérios desse modal, mas ignora-se porque não foi considerado.

Entrega em 2022 ou 2023

Doria e Baldy enfatizaram datas diferentes para a entrega do sistema. O governador apenas disse que o projeto ficará pronto em 2023, mas o secretário prometeu que partes do corredor serão entregues em 2022.

Projeto entregue num tempo reduzido de implantação

Doria enfatizou que o BRT é um projeto mais rápido de ser implantado, porém, somado o tempo entre o anúncio do corredor e sua previsão de entrega teremos chegado a um prazo semelhante à construção da Linha 18-Bronze. Se em vez de cancelá-la o governador tivesse anunciado a assinatura da ordem de serviço em julho de 2019, o ramal de 14,7 km poderia ficar pronto em meados de 2023 ou antes, como declarou o presidente da VEM ABC na época.

Demanda original previa 340 mil passageiros com a Linha 18, mas BRT só deve atrair 115 mil pessoas (GESP)

Demanda estimada em 115 mil passageiros por dia

Como mostrou o site nesta sexta-feira, a demanda citada pela gestão Doria em 2019 era de 340 mil usuários/dia, a mesma do monotrilho e que na ocasião foi considerada factível para o corredor. Agora, Baldy fala em apenas 115 mil passageiros/dia e citou a pesquisa Origem Destino para justificar uma queda abrupta no público potencial do trajeto. Novamente, o secretário continua a dever os documentos que comprovam essa afirmação e que contrariam o estudo EIA-RIMA desenvolvido em 2014.

Primeira conexão direta com o Metrô

Orlando Morando sacou uma afirmação bastante questionável, dizendo que o BRT será a primeira conexão direta através de transporte público com o Metrô. O que o prefeito considera o termo “direto” é difícil de explicar. Talvez o serviço expresso? Caso contrário, o Corredor ABD já faz essa função em duas estações, Jabaquara e São Mateus (apesar de não haver ligação física com a Metra).

“Não houve substituição de nenhum projeto”

Questionado pelo jornal Diário do Grande ABC sobre a troca da Linha 18 pelo BRT, Baldy negou que isso ocorreu, apesar de os dois sistemas utilizarem o mesmo trajeto. A narrativa do político goiano é a de que o cancelamento do ramal de metrô foi feita por outros órgãos de governo, embora isso só tenha ocorrido cerca de um ano depois do anúncio do novo modal por Doria.

Trem da Scomi: Linha 18 poderia trocar de fornecedor com mais facilidade que o Metrô com a Linha 17 (VEM ABC)

Verbas federais para a Linha 18

O secretário também justificou a decisão do fim da Linha 18 ao afirmar que faltaram verbas federais ao projeto. De fato, o governo Dilma chegou a prometer esses recursos, mas logo no início da licitação. Com a crise financeira, a gestão Alckmin já buscava há anos uma fonte de financiamento direta para bancar as desapropriações e não contava mais com qualquer aporte federal.

Scomi falida

Baldy, estranhamente, citou a falência da fabricante de monotrilhos Scomi, da Malásia, como outro pretexto para tornar a Linha 18 inviável. O executivo da STM, entretanto, ignorou o fato de que empresa foi contratada diretamente pela concessionária VEM ABC, assim como a ViaQuatro encomendou trens da Rotem sem que houvesse algum envolvimento do governo.

Como a própria VEM ABC disse na época, havia outros grupos industriais capazes de substituir a Scomi, da mesma forma que o próprio governo Doria fez ao contratar a BYD para o lugar da fabricante falida na Linha 17. O desenrolar na linha Bronze seria até mais simples afinal não haveria questionamentos na Justiça, como ocorreu com o Metrô e que fez o projeto atrasar muitos meses.

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  1. Incrível como a população e ninguém da imprensa contesta esse absurdo que está acontecendo.

  2. E o PSDB segue destruindo o desenvolvimento de SP. Foi assim com a Fepasa, com as Escolas, com a Saúde, e agora segue destruindo os projetos do Metrô.

    Dória quer fazer tudo rápido pra se promover, mas não sabe fazer nada direito. Nunca vi eleições tão danosas ao país, como as de 2018.

    Eu acho é pouco, o povo tem o direito de escolha, e escolhe o governo que merece!

    1. Destrói. Depois faz mkt com a privatização. Entrega por uma miséria. Atrasa a entrega das obras e ainda paga multa bilionária. Aí é fácil.

  3. “Primeiro BRT no estado de São Paulo”

    E o BRT de Sorocaba que já esta em operação é o que ?

    E o BRT de Campinas que já está com obras bem avançadas ?

    E o Expresso Tiradentes citada pela matéria seria o que ?

    Fazem a população de trouxa e nada acontece com esta corja.Olha, sem mais palavras.

  4. “Estado dá aval para tirar BRT do papel”

    No mesmo instante ao reunificar as linhas 7 e10 da CPTM recriando a linha 710, o governo deu com uma mão e tirou om a outra a Linha18-Bronze!
    O Dória enganou a todos! Ao se eleger governador usou o álibi de que não era político, se vendeu como um gestor que só queria o melhor para a cidade, na verdade é um lobo em pele de cordeiro, político matreiro da pior espécie! Em suma, quando chegar ás próximas eleições vira com o argumento que o Monotrilho não era viável e nos enfiara goela abaixo um corredor de ônibus BRT, ultrapassado, mal executado e muito longe de atender as melhores técnicas para implantação de um sistema de transporte complexo e de grande monta! Na verdade, a impressão é de que estão procrastinando a questão do cancelamento do contrato com a VEM ABC (operadora do monotrilho) pagando uma multa astronômica, o próprio Alckmin “Pai” da Linha 18-Bronze, defendeu retomada do modal no ABC Paulista e recentemente afirmou que o Monotrilho tecnicamente é mais adequado, pois tem a vantagem de trafegar em espaço aéreo sem interferências em um local alagadiço, comprovadamente de fundo de vale, além de não interferir nos inumeráveis cruzamentos em nível. Demanda para tanto comprovadamente existe, pois não são antagônicos, esta declaração do Alckmin, que foi quem avalizou a retirada da Linha-10 da Luz na época em que era governador, embora ele seja do mesmo partido de Dória além de confirmar a discórdia é mais uma constatação da vulnerabilidade de decisões abstratas e que a politicagem rasteira no Brasil sempre prevalece acima das decisões técnicas sensatas.

    1. Ah, infelizmente eu duvido muito que não saia. Vão querer usar isso pras eleições no ano que vem.

  5. Projeto que é literalmente um corredor, sem elevado, próximo a córregos – que sem dúvida aguenta qualquer chuvinha, e elétrico, que há boas chances de ser operado por diesel, como é no Corredor ABD.
    E ainda tem imbecis que defendem essa porcaria, alegando que o BRT vai mais rápido que o monotrilho, e que o mesmo causa interferência no trânsito (???).

    E isso sem contar que a tal da “Linha 20” não tem prioridade para chegar até a região. Maravilhoso.

  6. Que palhaçada de corredor é esse, que nem é separado das outras vias pra ser considerado BRT?! É inacreditável como o ser humano burro troca um monotrilho por um corredor de ônibus m**da desse. Precisamos fazer alguma coisa e acionar o Ministério Público pra impedir o governo e a Metra de fazer essa obra e trazer o monotrilho de volta. Esse projeto da m**da Metra tem que parar na justiça igual fizeram com o complexo Rapadura na extensão da linha 2 verde. #CancelemEsseCorredor #VoltaMonotrilho #VoltaLinha18

  7. É deprimente acompanhar a questão de mobilidade em São Paulo. A L18 traria muitos benefícios e será substituída por essa porcaria que nem um expresso Tiradentes gourmet é, já que no expresso Tiradentes existe vias elevadas.

  8. Além dos argumentos contestando a decisão dio governo estadual, há de se pensar tbm no futuro. O monotrilho, a meu ver, seria uma obra definitiva poderia, no futuro, ser ampliada ou interligada com outros modais, enquanto o BRT estará sempre sujeito ao trânsito no local e às intempéries, chuvas, alagamento etc. Como sempre os govetnis de plantão não têm visão de futuro

  9. Vendo a ilustração este corredor parece inferior ao corredor São Mateus Jabaquara. Se for construído ficará logo saturado como o Transmilenio de Bogotá. Até o BRT do Rio de Janeiro com poucos anos de inauguração já está saturado. Isto é o prejuízo do interesse público para beneficiar o interesse privado. Provavelmente as autoridades favoráveis a este BRT não utilizarão estes ônibus no seu dia a sua. É triste ver autoridades que pensam a curto prazo que pensam na próxima eleição e não na próxima geração.

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